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Débora Tavares Débora Tavares Author
Title: [CANTINHO NERD] CRÍTICA #32 - ELA
Author: Débora Tavares
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Um filme futurista sem ter carros voadores e ciborgues, com um filtro avermelhado dos anos 70. Um romance com muito mais momentos de ...


Um filme futurista sem ter carros voadores e ciborgues, com um filtro avermelhado dos anos 70. Um romance com muito mais momentos de “vergonha alheia” do que suspiros. E a voz inconfundível de uma das atrizes mais belas, e sensuais, da atualidade. Essas são as principais características do novo filme de Spike Jonze, “Ela” (Her), o também diretor do incrível “Quero Ser John Malkovich” conta a história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) um homem sensível e melancólico que vem sofrendo com o divórcio com Catherine (Rooney Mara, uma verdadeira atriz camaleoa, aqui tão delicada e frágil), que decide comprar um novo Sistema Operacional que interage plenamente com o usuário, praticamente um ente virtual completo, uma pessoa “presa” em uma máquina. Quase. 

No mundo de Theodore conhecemos uma realidade que mistura uma estética clean e minimalista - o escritório em que ele dita para o computador cartas para outras pessoas - com a desordem de seu apartamento, em um mundo em que uma multidão de pessoas vive com um fone sem fio na orelha falando “sozinhas” por aí, como na saída do metrô, na cena em que Theodore está desesperado. A própria cidade, que nos é informada ser Los Angeles, é um misto de Xangai (um dos locais de gravação) pelos edifícios exorbitantes e a atmosfera amarelada de poluição, com certo aspecto genérico de grandes metrópoles, um futuro bem próximo do presente em que vivemos, sem maiores artifícios futuristas que vemos em outros filmes. 


Theodore compra esse novo sistema operacional, autointitulado Samantha (Scarlett Johansson), e instantaneamente há uma empatia entre homem e máquina, mas esse é apenas uma dos muitas capacidades de Samantha. E com nós, a plateia sentada comendo pipoca, há uma identificação direta com a voz de Samantha. A escolha de Scarlett se deu apenas nos últimos quatro meses de filmagem, até então Samantha era interpretada por Samatha Morthon, uma atriz britânica (lembram das gêmeas do filme “Minority Report” que ficavam emergidas na água? Era ela. E também atuou no filme “Sinédoque, Nova York”, uma das inspirações de Jonze para este longa). Mesmo assim, a inserção de Scarlett muda completamente nossa percepção das cenas, mesmo com sua ausência apenas a oscilação e a rouquidão de sua voz nos fazem imaginá-la a todo o momento. Somos tão cativados e hipnotizados por Samantha quanto Theodore. 

A partir disso nos deparamos com um filme que expõe questões muito complexas e presentes no nosso cotidiano de interação com o mundo virtual. Ainda não chegamos ao ponto de estabelecer relações com sistemas artificiais, mas essa relação entre Theo e Samantha serve como um reflexo das relações que estabelecemos entre nós mesmos. É muito interessante ver o conflito do protagonista que sai de um casamento em que os dois cresceram e amadureceram juntos, com a prevalência do contato físico (ausente em Samantha, mesmo com o “aluguel” da moça como um “corpo” para ela, o que foi um desastre) que criou um abismo emocional entre os dois com o passar dos anos. Tudo que Theo tinha com Catherine, ele não tinha com Samantha. E vice-versa. 


“Ela” é quase como um ensaio sobre a solidão e o individualismo, com tons de melancolia representados na fotografia - quando Theo está feliz há uma predominância do vermelho, quando triste, do branco - na música - o cantarolar de Samantha com Theo tocando ukelele. E, principalmente, na maneira quebrada e incompleta que se dá a interação entre as pessoas. Vale lembrar o casamento de Amy (Amy Adams) que se acaba depois de oito anos por um motivo banal, como exemplo. E como Amy, e o próprio Theo, não conseguem se comunicar tão bem como com seus respectivos sistemas operacionais. 

O que foi um pouco estranho foi o final. A questão de que Samantha e todos os outros sistemas operacionais alcançaram proporções praticamente infinitas, foi um corte bem abrupto, o que contribuiu ainda mais para a tristeza do enredo, ficamos tão perdidos quanto Theo e Amy. Eu já imaginava que Samantha iria sumir no final, mas achava que seria por causa dos distúrbios que a programação gerou nas pessoas, vários homens e mulheres se relacionando emocionalmente com os SOs não pode dar em algo bom para a psiquê. Mas Jonze optou em escolher a “síndrome de Deus” dos criadores do software que partem para um plano em que conseguem se comunicar sem palavras, uma troca de milhares de dados simultaneamente. Faz sentido, é estranho e muito, muito triste.  


“Ela” recebeu cinco indicações ao Oscar 2014 - Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original ("The Moon Song", de Karen O) e Melhor Design de Produção. Provavelmente vai levar nas categorias de Roteiro e Melhor Design. Um filme imperdível, que emociona qualquer um e nos faz rever vários comportamentos automáticos que temos no dia a dia. 



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