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Mariana Ribeiro Mariana Ribeiro Author
Title: [TEMÁTICA DDS] LOUCURA E A MENTE HUMANA
Author: Mariana Ribeiro
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Os questionamentos acerca da loucura e do comportamento humano são bem antigos, e duas coisas são importantes quando pensamos em loucur...

Os questionamentos acerca da loucura e do comportamento humano são bem antigos, e duas coisas são importantes quando pensamos em loucura: seu conceito mudou conforme as épocas e o termo abrange vários significados. Assim, esse texto busca abranger filmes, livros e séries que tratem do tema loucura. Com isso, creio que possamos pensar mais sobre o que assistimos e lemos, sem deixar de nos divertir. Gostaria de destacar que a loucura é somente um dos elementos presentes nos textos, filmes e séries, porém não o único, e cada referência que farei aqui sempre merecerá um foco maior se quisermos identificar as várias interpretações possíveis. Portanto sugestões são muito bem-vindas, pois o texto não pretende estabelecer teorias, mas somente mostrar algumas dessas  interpretações possíveis entre as tantas existentes por aí. 

Pelo que vejo no cinema e em minhas leituras, consigo pensar em, basicamente três tipos de representação da loucura: a loucura causada por traumas ou atos cometidos a partir de impulsos que provém, por sua vez, de sentimentos humanos; a loucura como consequência de uma possessão maligna; e a loucura relacionada com doenças da mente e comportamentos humanos. Claro que generalizei um pouco, pois há muitos filmes e textos que ficam entre esses tipos de representação, e também é possível que existam outros desses tipos, mas creio que esses três tipos são os mais comuns nesses meios artísticos.

Primeiramente, explicitarei qual seria o primeiro caso, o da loucura caracterizada quase sempre por transtornos, que é causada por traumas e atitudes das personagens. Um exemplo perfeito disso seria o filme Ilha do Medo de Martin Scorsese, em que o personagem Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) não consegue lidar com a morte de sua esposa, o que o deixa confuso e seriamente afetado psicologicamente, levando-o a criar toda uma situação. Nesse caso, o personagem acaba ficando louco devido aos acontecimentos e suas próprias ações, como é mostrado ao final do filme. Caso parecido com esse, é de O Operário de Brad Anderson, em que Trevor Reznik está há um ano sem dormir, devido a acontecimentos causados por ele, e que ele mesmo não se lembra de início. Em certo ponto, o personagem começa a delirar e desenvolve um transtorno de personalidade múltipla. Nos livros, é possível observar a loucura desenvolvida em Raskólnikov de Crime e Castigo, Dostoiévski. Tudo acontece pelo fato de o personagem, agindo por impulso, ter assassinado uma idosa a fim de roubar seu dinheiro. Assim, um homem que vive a partir de certos princípios, acaba em um questionamento angustiante, tentando buscar respostas para  definir se o que fez foi certo ou errado. É uma obra filosófica, sobretudo, que trata dos questionamentos que cercam a existência humana, e nos leva a refletir sobre vários aspectos da nossa vida. 

Na verdade, esse tipo de pensamento sobre a loucura vem desde a Antiguidade, já que os textos antigos, principalmente as tragédias, estão repletas de loucura. Um exemplo interessante é Medéia de Eurípedes, em que a personagem mata seus filhos com o objetivo de vingar-se de seu marido traidor. A loucura vem, principalmente, de seu conflito interior causado pelo amor e ódio, e tanto antes quanto depois, Medéia se lamenta pelo que precisa fazer. É interessante saber que na Antiguidade, também era comum encontrar textos em que a loucura era permitida pela vontade dos deuses. Assim, creio que em Ilha do Medo, O Operário, Crime e Castigo e Medéia, os personagens são atormentados e enlouquecidos pela culpa que se liga às suas atitudes, que, por sua vez, são causadas por impulsos e sentimentos humanos, que afinal, são poderosíssimos. Entretanto, é bom lembrar que, por mais que a loucura provenha de sentimentos e situações marcantes, ela é pautada em todo um estudo científico, diferentemente da Antiguidade, em que a maioria das coisas eram baseadas na mitologia. 


Se seguirmos a ordem cronológica da visão da loucura, podemos já caminhar para a Idade Média, em que se destaca a doutrina demonista, que seria o segundo tipo de representação da loucura. Ora, todos sabem que a religião católica era muito importante nesse período, o que, consequentemente, levou a igreja à caça as bruxas, que eram acusadas de acometer as pessoas com sua maldade. Assim, tanto as bruxas poderiam ser responsáveis pelas doenças das pessoas, como o próprio maligno, tanto que foi criado até uma espécie de guia em que eram ensinados rituais de exorcismo, entre outras coisas, o Malleus Maleficarum. Desse modo, as doenças mentais eram geralmente vistas como consequência de possessões e feitiços. No cinema, vemos vários filmes que tratam de possessão demoníaca, fantasmagórica e outras. Para citar um clássico, indico O Iluminado de Stanley Kubrick, em que um Jack Torrance (Jack Nicholson) acaba por enlouquecer dentro de um hotel isolado do mundo exterior. Claro que como isso acontece é que é interessante, pois não sabemos ao certo se o indivíduo enlouquece por enlouquecer, ou se existe algum tipo de possessão ou ao menos uma presença do mundo espiritual ali, ou ambos. Agora, se realmente quisermos ver esse embate entre a religião (na Idade Média e por vezes até hoje), que pensa na loucura como possessão, e a ciência que justifica a loucura por meio de doenças e transtornos, uma ótima pedida é O Exorcismo de Emily Rose de Scott Derrickson. É uma história interessante, e também baseada em fatos reais, pois conta o que aconteceu com Anneliese Michel que sofria, segundo médicos, de epilepsia e psicopatia, e segundo o padre que tentou o exorcismo, de uma possessão de nada mais nada menos do que seis demônios. É uma história interessante de ser pesquisada, e, para quem realmente estiver interessado, acredito que o filme Requiem de Hans-Christian Schmid retrata melhor como foi esse processo de enlouquecimento ou possessão em Anneliese, até melhor do que o Exorcismo de Emily Rose. 

Já a loucura característica de doenças mentais e comportamentos humanos tem certa diferença em relação ao primeiro tipo de representação da loucura que explicitei no início do texto. Se difere, principalmente, pelo fato de que os transtornos e até doenças mentais desenvolvidas no primeiro caso vêm de acontecimentos e impulsos específicos. Já nesse caso que agora explico, a loucura parece ser inerente, arraigada na personagem, como na psicose. Um caso clássico é o de Norman Bates, personagem do filme Psicose de Alfred Hitchcock, em que a sua psicopatia e transtorno de personalidade múltipla se associa à relação obsessiva e no mínimo estranha que mantém com sua mãe, mesmo depois de morta. No filme esse comportamento de Norman é mostrado como se o personagem fosse dessa maneira desde sempre. Já na série Bates Motel, a psicose do personagem parece ter aflorado na adolescência, em um momento que podemos considerar como uma situação de grande pressão psicológica, já que se trata da morte de seu pai. Entretanto, a psicose já nasce com a pessoa, como somos levado a crer, e acredito que pode tanto ser representada como manifestada devido a alguma situação estopim, como no caso de Norman Bates, quanto pode ter sido sempre visível, como é o caso do protagonista da série Dexter, em que seu comportamento psicótico já se mostra desde sua infância. Outros filmes que retratam a questão da psicopatia e que vale a pena conferir são: Precisamos falar sobre Kevin, Psicopata Americano, Violência Gratuita, Um Estranho no Ninho e Seven, sendo os dois primeiros relacionados ao primeiro tipo de representação da psicose e os três últimos relacionados ao segundo tipo.

Um texto que me lembra a loucura manifestada em certa altura, mas sempre existente, é O Alienista de Machado de Assis, em que o personagem, que nesse caso não é psicopata, exemplifica bem a questão de que a loucura é condição humana, que pode se desenvolver e vir a tona em algumas pessoas. Digo isso, pois aqui o personagem Simão Bacamarte, espécie de médico, decide criar um hospital psiquiátrico para trabalhar com seus pacientes. O personagem acaba saindo pelas ruas e analisando as pessoas, diferenciando assim, quem possivelmente seria louco. Porém, em algum momento desse processo, o personagem acaba se perdendo, mas não pelas suas atitudes, mas por ele mesmo ser o problemático da história. Tudo colabora para essa conclusão, pois que há um momento em que não resta mais ninguém para ser colocado no hospício, nem mesmo seus amigos ou sua esposa. Aqui, creio que a loucura é representada no sentido de que o personagem já era louco, por ser perfeito, como acredita, e em certo momento isso veio à tona. 

Também há os casos da representação de doenças mentais como a esquizofrenia e a melancolia. É curioso que essas doenças tenham sido vistas como manifestações do mal, como no caso da melancolia, vista como uma tentativa do demônio de deixar os monges tristes com o fato de cumprir sua função, ou seja, louvar a Deus em reclusão, e assim, fazendo-os desistir de seus propósitos santos e deixar o diabo vencer. Porém, com o avanço nas pesquisas acerca do cérebro e mente humana, temos outra visão acerca disso. Assim, no cinema, vemos tanto os filmes que tratam da loucura causada pela influência do mal e até possessão diabólica, quanto aqueles que tratam dessas doenças como são definidas nos dias de hoje. Vale ressaltar que muitas vezes as doenças são retratadas não como um motivo de impedimento das faculdades intelectuais, mas como um motivo de superação. Cito aqui alguns filmes que me levam a pensar sobre esses aspectos: Melancolia de Lars Von Trier que trata de uma noiva que em pleno casamento entra em um estado de tristeza profunda, e não vê mais sentido na existência do mundo, mesmo quando a terra está para se chocar com outro planeta. Também lembro de filmes como O Solista de Joe Wright, em que Nathaniel Ayers (Jamie Foxx) é um homem esquizofrênico que vive nas ruas tocando o violoncelo surpreendentemente bem, e até já foi estudante de música, mas devido a sua condição, não consegue tocar em nenhuma orquestra, independentemente do esforço que o jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr.) faz para tirá-lo das ruas. Outros filmes que lidam com doenças mentais e comportamentos humanos são Uma Mente Brilhante (lida com esquizofrenia e a superação), O aviador (TOC) e Meu Primeiro Amor (hipocondria), entre tantos outros. 


Aqui termino minha apresentação de algumas maneiras pelas quais a loucura pode ser representada no cinema, na televisão e nos livros, lembrando que são somente opiniões, assim como cada um pode ter a sua própria interpretação. Para quem gostaria de saber mais sobre o assunto pode procurar livros como A Loucura e as Épocas de Isaias Pessotti, no qual me baseei e que explica melhor algumas coisas que exemplifiquei. Por fim, sugiro o texto Elogio da Loucura de Erasmo, em que a loucura faz um elogio a si mesma, mostrando que é mais importante que tudo; e também a série chamada Alfred Hitchcock Presents de 1954, que lida tanto com mistério e casos estranhos, quanto com a loucura. Vejam algumas das sugestões e façam suas próprias conclusões e interpretações. 
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