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Maluci Vieira Maluci Vieira Author
Title: [PAPO DE SERIADOR] VERGONHA DE SER SERIADORA
Author: Maluci Vieira
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Não, esse não é só um título sensacionalista que será então debatido e confrontado. Não mesmo. Esse é apenas um desabafo sobre a vergon...

Não, esse não é um título sensacionalista que será então debatido e confrontado. Não mesmo. Esse é apenas um desabafo sobre a vergonha que sinto. Hoje é o Dia da Toalha e até ano passado não sabia muito sobre isso. Hoje, explico orgulhosa para quem quiser saber. E foi por conta do Dia do Orgulho Nerd que comecei a pensar no assunto. Ser nerd já passou por todas as fases possíveis nos últimos anos. Ser nerd já foi motivo para ser discriminado, taxado como gênio, garantia que no futuro você será chefe das pessoas que riam de você, já foi coisa de hipster e também já ficou mainstream

Assim, muitas revistas, sites e pesquisas voltaram os seus olhares curiosos  e gananciosos  para essa área. Provando e logo em seguida desmentindo muita coisa. Havia controvérsia e uma certa exigência das próprias pessoas que se definiam como nerds. “Isso não significa que você é inteligente”, “Você tem que saber diferenciar Marvel de DC”, “Tem que conseguir ter bons argumentos na hora de debater sobre qual é a melhor plataforma de games”. Sério, eu não faço ideia da definição exata de nerd e não vou perder meu tempo pesquisando sobre, porque eu não me importo.



Não me interessa saber o que o fulano de tal pensa que uma pessoa precisa ter para poder ser nerd. Eu me sinto uma. Não tenho uma camisa da minha série favorita, não tenho todas as sagas para ler, não tenho coleções e miniaturas de tudo que amo. Simplesmente porque não sou rica! Isso não quer dizer que sou menos nerd que você que conseguiu comprar tudo isso ou que sabe o nome de todos os autores famosos. Ser nerd é além do que você tem, é um estado de espírito. Sabe quando e como eu percebi que sou tão nerd como qualquer outra pessoa? Quando eu senti orgulho disso. Quando comecei a mostrar para as outras pessoas essas coisas e falar “eu queria conhecer ele”, “olha que lindo”, “pensa o meu filho usando isso”.

Sabe o que foi uma pena? A demora. Não me dava conta que mais pessoas gostavam das mesmas coisas que eu e que elas pensavam de uma forma muito semelhante. Quando eu olhava essas revistas e reportagens, parecia um mundo muito distante, onde só as pessoas que faziam exatamente aquelas coisa podiam se sentir daquela forma. Mas se eu não era nerd, o que parecia mais próximo ao meu estilo, o que então eu era? Atleta não podia ser, estava longe disso. Popular, muito menos. Como não conseguia me encaixar em lugar algum, eu era a CDF deslocada. Que no meu caso, se resumia a passar cola para quem tivesse interesse.

E se eu gostar de um pouco de cada um deles?
Daí vocês se perguntam, e o que é que isso tem a ver com ser seriadora? Repondo claramente – Tudo! Novamente me senti deslocada quando o assunto se tratava de séries. Assistia com os meus pais, então fomos entendendo o básico sobre esse universo, juntos. O problema era quando saía da minha zona de conforto. Até então comentava as séries que passavam no SBT, como “Eu, a patroa e as crianças”, com a minha amiga e as que eu alugava na locadora eu comentava e assistia com os meus pais. O “problema” foi quando comecei a investigar mais sobre elas na internet.

Aqui a realidade era diferente, consegui assistir um número maior de séries e, é claro, adorei! A desgraça é que não tinha quem fizesse o mesmo. Assim eu pensava. Não lembro exatamente como, mas, em Janeiro de 2013, entrei em um grupo no Facebook conhecido como SDD. E ali pude ver que todos falavam a mesma língua. Com a sorte de ter encontrado pessoas maravilhosas para me recepcionar e ajudar, pude me sentir em casa. Soube que ali era o meu lugar. Era tranquilo, todos aprendíamos juntos e era longe da minha realidade. Um grupo secreto onde eu posso ser só a seriadora, deixando a “Maluci” do lado de fora.


Mas fiz amigos. E amizades não se constroem só de séries. Elas podem começar com isso e muitas se fortalecem exatamente por causa das séries. Mas se você não mostrar o seu “eu” para a pessoa, não se torna algo real. Agora a minha realidade e o meu universo paralelo seriador haviam colidido. Tanto, que comecei a fazer parte de um projeto chamado Diário de Seriador. Vi ele deixar de ser uma ideia e ganhar forma, estou aqui desde o começo. Então vocês podem imaginar o amor e orgulho que tenho por ele, não é mesmo?

Er..non. Pera. É óbvio que amo demais o blog e tudo o que sai dele. Tenho amigos aqui e muitos colegas também. Até na verdade, a maioria deles veio com o blog. Mas então o que me impede de postar as reviews e matérias que eu faço na minha timeline, de postar diversos status sobre o episódio que acabei de ver ou mesmo de abrir a tampa do meu note deixando exposto o papel de parede de alguma série em um lugar público? Nada. Nada além da sensação de me sentir deslocada. Nada além de achar que todos vão olhar e pensar que aquilo não faz sentido, que é estranho e até errado. “Onde já se viu uma garota de 20 anos com papel de parede do celular de um personagem?” ou “Que fica o tempo todo falando sobre ficção para exemplificar uma situação real?”.

Sim, eu sei. Loucura. Mas não adiantar negar que já pensei muito assim – sobre mim. Sabe qual foi a solução? Os meus amigos seriadores. A cada dia fui adicionando mais e mais gente sem perceber no Facebook, e assim ia dando vários likes nas postagens deles porque se tratavam em sua maioria sobre séries. Assim chegou um momento que olhava a página inicial e só via coisas sobre séries. Senti-me em casa novamente. “Se Maomé não vai até a montanha...”. O jeito foi fazer da minha realidade o meu mundo nerd. Foi começar a assumir esse meu lado seriadora e sem muita pressão, fui começando a ter orgulho dele.


Foi difícil sabia? Mas a sensação de ter gente comentando o que você postou porque entendeu aquilo e se identificou é a melhor parte. O que falar de um post que fiz aqui, em forma de desabafo também, porém menos dramático, e de certa forma fez sucesso? Simplesmente não entendi. Eu só havia descrito o meu dia a dia e a forma como me sentia. A minha recompensa não são os likes ou visualizações. Nada disso. Digo que foi um sucesso pela forma que fez eu me sentir quando lia os comentários do tipo “Essa é a minha vida” ou “Me descreveu perfeitamente”. Isso é, eu peguei toda essa forma frustrada e direcionei, “desloquei” para um lugar onde me sentia bem.

Não posso só culpar a sociedade e nossos pais por ficarem falando ”Você não faz nada da vida”, “Não tem vida social”, “Isso é ficção, não te acrescenta nada”. Claro que essas frases – não somente o sentido delas, mas o reforço do “não” pesa bastante – desestimulam. Mas apesar desse efeito, a pior de todas as críticas, sempre foi a minha. Tudo isso acontecia por ser muito autocrítica, sempre me julguei demais. Demorei em perceber que devo falar do que amo abertamente, com bom senso, mas sem receio.

Coincidentemente, ser seriador é o novo preto. Nunca ouvimos falar tanto sobre isso. Na faculdade mesmo, ouço o pessoal falar de séries o tempo todo. E é lógico, logo me intrometo no assunto. E nessa, já virei praticamente uma referência quando o assunto é séries. E diferente do que eu costumava pensar, nem todos me olham como a inútil que só assiste séries. Claro, tem um ou outro que pensa, e até diz, que isso não vai me levar a lugar nenhum, mas eu não me importo mais com eles. Ouço e respeito à opinião, e deles só peço que façam o mesmo quanto a minha visão sobre as minhas séries.

Feliz Dia da Toalha!
A questão é que você não deve ter vergonha do que você gosta. E se você não tem vergonha alguma, pelo contrário, tem é muito orgulho do que assiste, vai lá e deixa isso explícito. Comente, publique, compartilhe, coloque como foto de capa do Facebook. Pois assim você pode estar ajudando alguém, assim tipo eu, que era fechada demais para poder ter orgulho. Hoje vou dar um novo passo colocando isso aqui na minha timeline. Ontem ainda estava pensando na vergonha que tenho dos meus textos, deixo algumas janelas em tamanhos menores quando escrevo, minimizo se alguém olha e não divulgo. Se todos fossem como eu, nunca teria encontrado meus amigos seriadores, sorte que um "deslocado" resolveu criar aquele grupo.
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