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Title: COMO LOST MUDOU A MANEIRA DE VER (E FAZER) TV
Author: Diário de Seriador
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TEXTO POR: THELMA OLIVEIRA Em maio de 2010, quando Lost exibiu seu último episódio (apropriadamente chamado "The End") div...

TEXTO POR: THELMA OLIVEIRA

Em maio de 2010, quando Lost exibiu seu último episódio (apropriadamente chamado "The End") diversas emissoras do mundo todo alteraram sua programação para exibir o episódio o mais rapidamente possível em relação a sua exibição original nos EUA para saciar a legião de fãs que não queria de forma alguma esperar tanto para compartilhar na internet o que viram quanto para discutir e dissecar cada cena exibida. Mas para entender porque tantas pessoas se importavam tanto apenas com o episódio final de uma série, vamos voltar ao início e entender como Lost foi criada e porque gerou tanto impacto antes mesmo de ser exibida.

No final de 2003, o então responsável pela programação do canal ABC, Lloyd Braun, buscava soluções para a audiência que não parava de cair - com todas as idéias antigas falhando em resolver a crise, era o momento ideal para que o canal arriscasse em uma produção surpreendente que recuperasse o público perdido. Em viagem de férias ao Havaí, ele teve a idéia de uma série que seria uma mistura do popular reality show Survivor com o filme Náufrago, com sobreviventes de um acidente tendo de sobreviver em uma ilha. A partir da idéia de Braun, em janeiro de 2004 J.J. Abrams, que já havia criado a série de espionagem Alias para a ABC, e o jovem escritor Damon Lindelof foram contatados para escrever o que seria o roteiro definitivo do episódio piloto. O resultado foram duas horas de série que custaram 14 milhões de dólares (e custaram também o emprego de Braun, demitido antes mesmo do início da exibição de Lost) e levaram 18 milhões de americanos para a frente da televisão. Junto com a também estreante Desperate Housewives, Lost estava mudando os rumos da ABC. Abrams, já comprometido com outras produções, deixou a série ainda durante a primeira temporada e coube a Lindelof e o novo produtor executivo Carlton Cuse criar não só toda a mitologia da série mas como efetivamente cuidar de todos os aspectos relacionados a ela.

Lost já começou gerando dúvidas nos espectadores: como definir aquela série que já apresentava logo no início um grupo perdido em uma ilha aparentemente no meio do nada e sendo atacado por um monstro invisível e um urso polar (!). Neste momento, também surgiam com força total as redes sociais, permitindo que a discussão da série não ficasse restrita a apenas amigos e vizinhos ou publicações especializadas. Era um novo meio que permitia que qualquer um em qualquer lugar do 
mundo pudesse discutir qualquer tema da forma que achasse melhor com a possibilidade de que qualquer outro entusiasta pelo mesmo assunto respondesse de forma rápida e fácil. Assim, para quem acompanhava Lost na época de sua exibição não se tratava apenas de uma série, mas de um objeto de estudo para pessoas que analisavam episódios cena a cena, procurando desde referências religiosas, literárias e filosóficas a pistas de tramas futuras. E incentivados pelos pelos showrunners Lindelof e Cuse, esses fãs ainda criavam teorias que explicassem todos os mistérios que a série apresentava a 
cada episódio.



Com o sucesso, não só vieram diversas séries tentando utilizar as mesmas fórmulas de Lost como a própria ABC aproveitou e produziu uma variedade imensa de conteúdo da série em diversas plataformas. Desde os tradicionais livros expandindo a história e a revista oficial com notícias, entrevistas e curiosidades, passando pelos "mobisodes" (episódios especiais de curta duração criados 
especialmente para celulares), jogos, o fórum oficial com membros da produção da série postando e interagindo com os fãs, o podcast dos produtores (que Cuse e Lindelof muitas vezes utilizavam para discutir teorias e responder questionamentos do público) e especialmente o mais ousado de todos, o jogo de realidade alternativa (ARG) Lost Experience, criado entre a segunda e terceira temporadas da série. O jogo consistia em uma espécie de caça ao tesouro com pistas espalhadas por comerciais de televisão exibidos nos canais que produziram o jogo e exibiam a série (Channel 4 no Reino Unido, Seven Network na Austrália e ABC nos EUA), diversos websites criados especialmente para o ARG, serviços de caixa postal, vídeos publicados na internet, anúncios em jornais, e até mesmo a distribuição de uma marca de chocolates exibida na série (Apollo) com senhas especiais e publicação de um livro (Bad Twin, cujo manuscrito inclusive é lido por personagens da série em alguns episódios).



Assim, a produção de Lost não estava envolvida apenas com a criação dos episódios mas também com diversas idéias em múltiplas plataformas para expandir a mitologia da série e manter a interatividade com o público. Lost tornou-se uma grande experiência multimídia em que a série de TV era apenas o início. Nos mesmos moldes de outras grandes produções do gênero (como Star Wars, que a série referenciou diversas vezes) até mesmo uma enciclopédia virtual, a Lostpedia, foi criada com o objetivo de catalogar tudo o que era visto não apenas nos episódios mas também nas 
outras fontes.

Vale lembrar também que a produção da série também conseguiu uma grande proeza para a época: negociar a data de término. Até então, séries de TV geralmente só eram encerradas quando seu conteúdo já havia se extinguido completamente e a audiência já havia sido perdida. Reconhecendo, porém, a forte mitologia em que a série era calcada e a necessidade de encerramento das tramas e dos 
mistérios, o canal e a produção fixaram o fim para a sexta temporada (na ocasião, a série estava em sua terceira temporada).



Lost pode não ter sido a melhor série de televisão de todos os tempos (mesmo seu episódio final dividiu o público), mas não há como negar que foi uma produção corajosa não só em seu início surpreendente mas também em não hesitar em mudar seu formato no meio de sua trajetória (com não só a introdução dos flashforwards mas também elementos mais ligados à ficção científica, como viagens no tempo) e no excelente aproveitamento de todas as formas de mídia disponíveis. 

Após Lost e o advento das comunidades online, para uma grande parcela do público já não é mais o bastante apenas ver TV. É preciso interagir, discutir, entender a fundo o significado de cada episódio, criar teorias sobre o que ocorre e o que pode acontecer, procurar por referências que podem ajudar a entender o que está na tela e o que está além dela. 

E este é o grande legado que Lost nos deixa. Apenas como série de 
TV é uma grande obra. Mas como obra multimídia e interativa é ainda melhor.

O que acharam do texto? Comentem!!
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