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Title: [C. NERD] QUE TAL UM CLÁSSICO? #5 - O EXORCISTA
Author: Raphael Gomes
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Em 1973 o mundo ficou chocado e assombrado com a estréia de "O Exorcista". Considerado o melhor filme de terror já feito, pel...


Em 1973 o mundo ficou chocado e assombrado com a estréia de "O Exorcista". Considerado o melhor filme de terror já feito, pela maioria dos fãs de terror, marcou não só a geração daquela época, mas também as próximas e se tornou referência para o gênero.

Mesmo já sendo aguardado após o grande sucesso do livro foi uma surpresa para todos quando longas filas se formaram nos cinemas. Ingressos que se esgotaram rapidamente, longas horas de esperas nas filas, pessoas que não conseguiram ver o filme todo devido ao conteúdo forte, todos esses fatos o transformaram em uma febre pelo mundo. Você pode até pensar que isso não é um grande feito porque hoje temos vários filmes que são ultra populares, como é o caso da saga "Jogos Vorazes" que termina esse ano e arrasta multidões aos cinemas, mas estamos falando de um filme que arrastou multidões em 1973, onde os meios de informações eram somente jornais, televisão e o famoso boca a boca.

Várias lendas urbanas foram atribuídas ao filme, rumores de que o filme é amaldiçoado, que metade das pessoas envolvidas morreram, que a atriz Linda Blair ficou louca ou morreu, entre outros. No entanto, essa má publicidade serviu para popularizar ainda mais o filme. Sim, há relatos de mortes entre parentes ou mesmo as próprias pessoas envolvidas com o filme, mas isso é normal e acontece em vários filmes e não é uma coisa surpreendente, muito menos exclusiva a filmes desse gênero.

O público daquela época não estava preparado para o conteúdo desse filme. Eles não estavam acostumados a um terror psicológico com cenas tão fortes e várias pessoas abandonaram as salas de cinema por não aguentarem as cenas. A nova geração acha esse filme fraco e prefere a violência dos filmes atuais, mas foi O Exorcista que elevou o nível do gênero, alçando para outro patamar a experiência do horror. Nenhum filme atual consegue se igualar ao impacto que esse filme teve sobre os expectadores na época, e dificilmente algum outro conseguirá se igualar. Não estamos falando de um grupo de adolescentes que ficou com certo receio de ver o filme, falamos de um medo causado em toda uma geração.


Prova disso são as pessoas mais velhas que estremecem somente de ouvir falar o nome do filme. Minha mãe é uma dessas pessoas, nunca teve coragem de assistir ao filme, e olha que ela até gosta de filmes de terror, mas sempre resistiu as minhas tentativas de fazê-la apreciar essa obra. Ela sempre diz que esse filme é do mal e nunca irá assisti-lo, então desisti dessa tarefa. Certeza que você também deve conhecer algumas pessoas assim, mostrando que a má publicidade deixou até quem não viu o filme amedrontado.

Um filme tão impactante não seria esquecido nas principais premiações. Teve dez indicações ao Oscar, entre elas Melhor Direção, Melhor Ator e Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e se tornou também o primeiro filme de terror a ser indicado ao Oscar de Melhor filme. Porém só conseguiu levar para casa os prêmios de Melhor Mixagem de Som e Melhor Roteiro adaptado. O filme teve mais sorte na premiação do Globo de Ouro, foi indicado a sete categorias e levou quatro (Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro) superando assim a injustiça na cerimônia do Oscar. Os prêmios para Melhor Roteiro são mais que merecidos afinal o filme foi adaptado por William Peter Blatty, o mesmo autor do livro, que brilhantemente conseguiu fazer uma obra bem fiel, porém com uma abordagem diferente do livro.

Sim, o livro possui a maioria das cenas fortes do filme descritas com precisão, deixando pessoas com imaginação fértil como a minha bem mais assustadas com a leitura que com o filme, mas percebemos diferenças gigantes entre as duas obras.


O livro é muito mais um terror psicológico do que uma simples história de exorcismo com passagens fortes. Se você procura um livro para se arrepiar a cada capítulo, lamento te informar, mas não será esse. Li vários comentários dizendo que o livro é “parado, nada acontece até chegar o final” e imagino que não conseguiram realmente apreciar o livro e esperavam ver o filme sendo transcrito.

Muito mais que uma história de exorcismo, o livro é uma batalha entre fé e ciência. Vemos o desespero de uma mãe, que recorre à fé quando a medicina perdeu as esperanças no caso de sua filha, em contraste com um padre que com sua fé abalada recorre à medicina tentando salvar uma garota. Uma batalha entre o que é sagrado e o que é profano, que atrai até mesmo quem não tem religião.

O começo da história é lento, sim, mas ai que está todo o trunfo da obra. Somos apresentados aos personagens antes de tudo acontecer, acompanhamos o desenvolvimento da personalidade deles para então entender todo o estrago que o demônio realiza. Atormentando todos a sua volta, o demônio só causa destruição e desespero, e só conseguimos perceber o real estrago das palavras de Regan possuída, porque a lentidão do livro serve para desenvolver brilhantemente os personagens, nos fazendo entender o que realmente machuca cada um deles.

Vemos melhor a diferença de comportamento, o prazer em causar o mal, o estrago na vida das pessoas, isso tudo vindo de uma menina que era dócil. O inferno que o demônio traz as vida das pessoas é bem mais impactante que as cenas explicitas. Este é um livro em que uma simples conversa com o demônio te deixam arrepiado e apreensivo, ficamos cansados junto com o padre, desesperados junto com a mãe e sofremos junto com a família. Isso tudo antes de o exorcismo acontecer, o que só acontece bem no final do livro.

Linda Blair e o diretor William Friedkin.

O autor cria uma tensão tão forte que nos vemos quase desejando realmente um exorcismo. Os detalhes das personalidades de Regan, suas ações, seus pedidos de ajuda são descritos tão explicitamente que nos dão arrepios. Com o livro podemos entender mais os motivos da possessão, quem é o verdadeiro alvo das artimanhas do demônio e as maiores consequências disso, detalhes que são omitidos no filme. O famoso clichê que o livro é bem mais completo que o filme se encaixa perfeitamente aqui.

Temos então um livro brilhantemente escrito que causa desconforto e arrepios, porém um thriller psicológico, e um filme que conta a mesma história, focando mais no exorcismo e nas cenas chocantes. Porém os dois com o mesmo brilhantismo.

P.S. Se você quiser ver mais sobre os impactos do filme há esse documentário no Youtube que mostra cenas das longas filas e entrevistas com os funcionários dos cinemas e expectadores. Você pode -lo AQUI.

P.S. Linda Blair está bem viva, só não conseguiu deslanchar sua fama e acabou só fazendo filmes ruins. E também uma ponta em PÂNICO, mas quase ninguém percebeu ela lá.

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