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Michelle Louise Michelle Louise Author
Title: [DDS DOCUMENTÁRIOS] BLACKFISH - FÚRIA ANIMAL
Author: Michelle Louise
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Como futura bióloga, me senti quase na obrigação de assistir esse documentário. Mais do que futura bióloga, sempre fui apoiante do Sea S...

Como futura bióloga, me senti quase na obrigação de assistir esse documentário. Mais do que futura bióloga, sempre fui apoiante do Sea Shepherd e sua luta contra o massacre de golfinhos no Japão e a luta, de mesma intensidade, para com as injustiças sofridas por baleias e tubarões.

Mas do que apoiante do Sea Shepherd eu sou radicalmente contra os shows com animais que ocorrem, seja no Sea World seja em qualquer outro lugar. Então, quando eu soube da existência de um documentário chamado Blackfish - Fúria Animal e seu tema, decidi que precisava assistir e, mais do que isso, não poderia me calar. Nisso, surgiu essa vontade imensa de fazer com as palavras e conscientizações presentes nesse pequeno documentário fossem passadas para a frente. Assim, nasceu o DDS Documentários que irá abordar outros documentários daqui para a frente, de diversos temas e espero que vocês gostem do novo quadro e absorvam dele o que for possível. 

Perturbador e chocante, para que é alienado em relação a como vivem os animais em cativeiro, são palavras que podem ajudar a resumir essa produção essencial de Gabriela Cowperthwait. Mais do que mostrar os absurdos ao redor e tais shows e seus perigos, ele é um convite para pensarmos: cabe ao homem o domínio sobre tais criaturas? 

Ex treinadores do Sea World dão sua cara a tapa para mostrar o que acontece por trás dos espetáculos maravilhosos – sim, eles o são- do parque tem ali sua fama contida e sua fatia financeira garantida. Tilikum, a grande orca macho de 2 toneladas é o centro do documentário que foca, sim, nos acidentes que já ocorreram não apenas ali, mas em outros parques aquáticos, incluindo as mortes de treinadores experientes como Dawn Bracheau, em 2010.


O Sea World é o grande e, provavelmente, mais conhecido atrativo da Flórida. Atraindo milhares de pessoas durante todo o ano para assistirem esses animais espertos e simpáticos, como Orcas e Golfinhos (lembrando que orcas são golfinhos e não baleias), fazendo suas peripécias na água, alegrando o público e fornecendo a eles o tão esperado banho pela água jogada pela causa de tais animais. Quando Dawn, tão amiga da orca com a qual trabalhava, é arrastada por Tilikum até o fundo da piscina e acaba morrendo de forma trágica, uma onda de discussão foi gerada. Em Blackfish, esse é o ponto de partida. Dawn, não era a primeira vítima de Tilikum, que já havia matado dois treinadores anteriormente. A fúria de Tilikum passou a ser noticiada e a Orca passou a ser considerada culpada por muitas pessoas, honrando o título de “baleias assassinas” que esses animais erroneamente recebem. 

Porém, vários outros casos de acidentes similares são mostrados no documentário, incluindo o caso de Ken Peters, treinador experiente, que foi arrastado repetidamente ao fundo da piscina pela Orca Kasatka, em 2006. Peters teve uma sorte melhor que a de Dawn e sobreviveu, mas a história poderia ter sido outra. 



O percurso de Tilikum é contado desde sua captura ainda filhote até o Sea World, onde hoje ele é mantido como o grande reprodutor do parque. Tilikum em seu principio era dócil, porém, o tratamento recebido no primeiro parque onde o animais ficou, o SeaLand – fechado porque ali Tilikum fez sua primeira vítima – não foi tão generoso quanto o animal merecia. Trancados em tanques pequenos e fechados durante a noite, Tilikum apanhava das Orcas companheiras nesses períodos. Machucados e sangramentos eram comuns no animal e, em momento algum, algo foi feito. Segundo Cowperthwait tais agressões podem ter contribuído para o estresse do animal e sua consequente violência. 

Na grande e triste realidade, Tilikum e as mortes que ele já ocasionou são apenas a ponta de um Iceberg gigantesco. Não se pode esperar que um animal enjaulado em um espaço pequeno – piscinas jamais serão oceanos- , fora se seu habitat natural, uma criatura familiar – sim, as Orcas são familiares- isolada em uma piscina fazendo acrobacias sem saber ao certo porque, reagisse de forma normal.

É importante destacar que não são registrados casos de ataques de Orcas a seres humanos em oceanos. O que já é bem distinto dentro do que ocorre dentro desses parques. Não culpo os treinadores que, pelo que foi possível observar, são os únicos que realmente se importam com os animais e seu bem estar dentro desses recintos, porém, restringir criaturas dessa magnitude, beleza e sentimentalismo às ações de conglomerados da indústria do entretenimento como se nada fossem é mais do que errado, é antiético.



Orcas restritas a um espaço tão diminuto, não me digam que as piscinas são grandes porque basta observar o tamanho do animal, tendem a desenvolver comportamentos violentos devido ao estresse sofrido além, e claro, da privação de alimento caso elas são aprendam as acrobacias que necessitam realizar. Um ponto discutido de forma clara é a possibilidade de a violência, de certa forma, ser passada geneticamente aos descendente. Lembrem-se que Tilikum é o reprodutor central do parque atualmente.

Orcas, em ambiente livre, vivem entre 30-50 anos, enquanto em cativeiro vivem, em média, 25 anos. Elas são animais que possuem uma forte conectividade emocional com seus filhotes e estes são afastados das Orcas mães após poucos meses enquanto essas, ainda em cativeiro, continuam vocalizando para encontrar os filhotes que elas não podem mais encontrar. A dentição dos animais é prejudicada como um todo, afinal, eles tentam sair dos tanques onde são confinados, mordendo as barras laterais e, muitas vezes, quebrando seus dentes devido à força empregada. Além de tudo isso, a alimentação em tais parques é restrita e os peixes são dados já mortos para elas.

É necessário lembrar que na natureza, elas se alimentam de cerca de 30 espécies diferentes de peixes, tubarões, lulas, focas, leões-marinhos, morsas, lontras-marinhas e aves. E Orcas tem um hábito muito único de caça que inclui movimentação e agilidade por parte dela. E não esperem que a água com cloro na qual tais animais vivem não tem efeito sobre eles e que sua barbatana é curvada aleatoriamente, embora a barbatana tenha diversas possibilidades para dobramento dentro de cativeiros. Você já viu alguma Orca em seu habitat natural com a nadadeira curvada? Exato, elas são retas. 
Não se prende um animal de 7 metros de comprimento e 4,5 toneladas dentro de uma gloriosa piscina e espera-se nada de errado ocorra. Não se interfere dessa forma na natureza e na vida de uma criatura, seja ela qual for, e espera-se que nada possa acontecer.


Blackfish, assim como eu, é um documentário parcial sim. Mas ele tem na sua parcialidade a relevância e a contundência que ele precisava para mostrar o lado não ouvido nessas atrações, o das Orcas. Que, ao contrário de quem assiste e paga por tais shows, não tem a opção de não estarem presentes. Colocar a culpa nos treinadores pelos acidentes causados não adianta, o sistema da indústria de entretenimento é cruel para com os animais e precisa ser revisto. O respeito e carinho de Gabriele para com as Orcas nesse documentário é o guia desse relato que merece e precisa ser visto. Documentário esse que já colhe seus frutos.

Os treinadores hoje já não são mais autorizados a entrarem na água com os animais nos shows e a frequência dos visitantes caiu cerca de 6% no parque. Mas isso não pode ser considerado uma luta vencida e nem uma batalha concluída. Muita coisa precisa mudar, principalmente, a forma como o ser humano coisifica toda e qualquer criatura considerada abaixo dele. É preciso que aprendamos com a amabilidade e inteligência desses animais e não restringirmos estes a tais condições. 

“Aquiescendo com um ato que pode causar tal sofrimento a uma criatura viva, quem dentro de nós não se sente diminuído como ser humano?” 
Rachel Carson, em Primavera Silenciosa, pg. 95.

Título:  Blackfish | Ano produção: 2013 | Dirigido por: Gabriela Cowperthwaite |  Duração: 83 minutos 
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