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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [C.NERD] RESENHA - ABARAT
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Onde é quando? Em Abarat, o tempo é espaço: as ilhas que formam esse fantástico arquipélago, banhadas pelo Mar de Izabella...





Onde é quando? Em Abarat, o tempo é espaço: as ilhas que formam esse fantástico arquipélago, banhadas pelo Mar de Izabella, se distribuem ao longo das horas do dia. Nas ondas desse mar caprichoso viaja o destino de Candy Quackenbush, que deixa para trás o tédio da cidadezinha onde mora, no interior dos Estados Unidos, para mergulhar de cabeça nos mistérios de Abarat. Não sabe dos perigos que a esperam: Cristóvão Carniça, o sinistro Lorde da Meia-Noite, tem um inexplicável interesse pela garota e tenta capturá-la lançando mão de inúmeros recursos mágicos e técnicos. Para fugir de Carniça e seu bando, Candy conta com a ajuda de uns poucos amigos: um simpático ladrãozinho com oito cabeças tagarelas, um aprendiz de feiticeiro que sabe andar pelas paredes, uma lula que se presta como telescópio. Seja nas garras de uma mariposa gigante, montada num Saltador-do-Mar ou voando numa máquina feita com palavras, Candy viaja sem rumo e sem descanso através das Horas, numa jornada turbulenta que lhe revelará estranhos segredos sobre si mesma.



A história começa sendo mostrada pelo ponto de vista de Candy, mas durante o livro é alternada entre várias personagens. Mesmo assim é nela em que todos os pontos parecem convergir. O interessante na personagem é que ela não é uma tipica aventureira, imaginativa ou ingênua com as coisas, ao contrário, o realismo é sua marca e já sabe o quanto o mundo pode ser cruel, essa visão sendo baseada em problemas familiares. Na verdade sua vida reflete a cidade que é descrita, pacata, monótona e condenada a um destino igual a dos outros. Até que devido a uma misteriosa história que ela resolve contar em um trabalho de escola, uma nova oportunidade e um mundo aparecem e Candy se agarra a eles como louca. Quando começa a jornada vêm junto os novos amigos e inimigos da heroína, o diferente João Treloso, o doce Malingo e o cruel Lorde da Meia Noite.
A trama se desenrola de uma forma inesperada para um livro considerado infanto-juvenil, os personagens vão se desenvolvendo e aos poucos é possível tomar partidos, adentrando-se na história. Além de que a mitologia do mundo de Abarat é mostrada de forma encantadora, como não amar um Mar que se chama Izabella??? E os segredos desse lugar vão envolvendo o leitor da mesma forma que surpreendem a própria Candy. As ilhas e os mistérios vão se tornando maiores e  você percebe que simplesmente alguns não serão respondidos, o que torna-os mais divertidos, todo mérito ao autor. Esse é o primeiro livro de uma série de quatro, o que significa que o final dá muito mais duvidas do que qualquer coisa.



Assim que comecei a ler, uma amiga me disse que esse era o livro que Clive Barker fez para crianças que não deu certo, simplesmente porque não é para crianças. Os enredos se misturam de formas complexas demais e caminhos que não são nada agradáveis para o público infanto-juvenil, afinal um dos vilões se chama Lorde Carniça e sua avó é famosa por juntar restos de pessoas e fazer outras para serem seus escravos. Uma aventura muito válida para um público mais adulto, sem falar em outras conotações de violência e mistério que fazem de uma história a principio muito simples para totalmente arrebatadora.

O jeito que tudo é construído é incrível, as ilhas sendo horas e os povos diferentes que tem em cada um deles, além da ganância e bondade tão bem representados em alguns. E também a personalidade da heroína foi muito bem apresentada e realçada, ela é alguém infeliz que simplesmente tem uma escolha de continuar no estado de antes ou simplesmente lutar. E essa “pergunta” é feita em toda a situação em que ela fica com medo, pensa em como vivia antes e decide que não vai mais ser assim. No começo, ela tem algo que não é exatamente bravura, na verdade era mais medo de voltar ao tédio do que qualquer outra coisa, e aos poucos é que isso se transforma em responsabilidade, empatia e amizade. É muito fácil se identificar com ela, ter essa vontade de mudar.

Os outros também vão conquistando o leitor nas outras páginas. Como o Lorde Carniça, no principio ele é o cara mal, e você acha que vai se resumir a coisas costumeiras, mais com o desenvolvimento do enredo simplesmente percebemos o quanto ele é cruel e a ilha dele também, seus servos, os costuradinhos, chegam a causar asco ao imaginar a sua aparência e o jeito como foram criados, além do que foi feito com o próprio Carniça pela avó. Detalhe para as ilustrações que são mega fantásticas.

Mas um dos grandes problemas do livro foi com certeza a tradução que deixou muito a desejar, desde o nome da cidade, Galinhópolis (tá, era Chickentown em inglês, mas por favor, né?) e nomes de personagens, tirando a força de alguns. E mesmo na escrita, dá pra perceber uma dinâmica no original em inglês que não conseguiu ser mantida. Apesar disso vale o esforço, a história é tão boa que suplanta esses defeitos.

Com certeza uma aventura para quem quer se surpreender, com recomendações para os livros de terror e suspense de Clive Barker que são ótimos também.


AUTOR: Clive Barker
PÁGINAS: 440
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2003 

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