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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [LIVROS] RESENHA - ESSA MENINA: DE PARIS A PARIPIRANGA
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Romance de estreia de Tina Correia, Essa Menina traduz a cultura popular nordestina numa narrativa comovente. Durante muito tem...





Romance de estreia de Tina Correia, Essa Menina traduz a cultura popular nordestina numa narrativa comovente.

Durante muito tempo, ninguém soube o verdadeiro nome de Esperança. Para todos, ela era Essa Menina. Decidida a reunir num livro as memórias de sua infância, ela desperta a criança curiosa que vivia a escutar a conversa dos adultos. Ao descrever as festas, as comidas e as brincadeiras no quintal, revela ao leitor, ainda que sob a perspectiva infantil, os anseios, fragilidades e sonhos dos que estavam à sua volta. 

Os grandes eventos políticos dos anos 1930 a 1960 são o pano de fundo dessas dramáticas e emocionantes histórias. Ora testemunha, ora protagonista, é a menina de olhos grandes e curiosos quem nos conduz por essa narrativa quase mítica, ambientada no interior do Nordeste.

Uma das maiores conquistas de um livro é quando ele consegue transportar o leitor para dentro das suas páginas ou o caminho inverso, quando a história do livro se transfere para a vida do leitor, fazendo com que ele seja lembrado nos mais diversos momentos. Esse é um exemplo do poder da literatura. Essa Menina faz isso através da descrição, os detalhes são cuidadosamente pensados para que as vozes das personagens e a sensação do ambiente possa ser facilmente apreendida. 

Nós acompanhamos a vida de uma menina desde a tenra infância até a vida de adulta, as memórias se alternam, indo e voltando, poucas vezes seguindo uma ordem cronológica. Apesar disso não é possível sentir-se perdido. O objetivo é ir desvendando junto com ela o mundo e as emoções. Cada impressão que ela tem sobre a vida nos faz lembrar da época em que tivemos essas primeiras descobertas.

Pelos olhos dela, que se chama Esperança, mas que todos só se referem como Essa Menina, conhecemos as lendas e as crendices que envolviam (e em alguns lugares ainda envolvem), as cidades do interior dos anos 30, onde dores eram curadas com orações e simpatias. É com riqueza e grande conhecimento, que a autora fala sobre, ou muitas vezes, complexos rituais que envolviam as festas, os remédios, as plantações e principalmente, a preparação da comida. Há uma razão para tudo, sendo ela lógica ou não, é no mínimo encantadora. Apesar de não envolver nenhum elemento sobrenatural, o clima parece ser muitas vezes mágico, talvez por estarmos vendo tudo da perspectiva de uma criança.

Muito ligado a isso está a religião, que devido à época, era uma força ainda mais poderosa do que é hoje. Pautando todas as relações sociais. Essa Menina, apesar de ter na Tia uma figura religiosa muito forte, está sempre a questionar a existência de Deus, não aceitando repostas fáceis, sem algum tipo de comprovação. Durante a história vamos acompanhando o crescimento dessa dúvida, que aumenta devido por ver nos homens que conduzem a espiritualidade agirem de modo tão diverso do que pregam.

Outro tema que tem grande papel de importância na história, é a política. O pai de Esperança é um ativo comunista que está sempre a tentar lutar pelas suas causas. Nós vemos a família passar por diversas situações difíceis por defender suas ideologias durante governos totalitários ou adeptos de práticas quase fascistas. Essa Menina vê as marcas da repressão em amigos e familiares que são presos e torturados em porões escuros. É duro pensar que isso aconteceu de verdade com crianças em épocas tempestuosas na história do Brasil.

A violência é um fato triste que durante o livro é explorado em outros aspectos. A melhor amiga da personagem principal, Das Dores, sofre muito com as surras da mãe, sendo também uma realidade para muitas outras crianças naquela mesma cidade. As sequelas de abusos também estão estampados em personagens mais velhos que não conseguem superar. 

Ainda me referindo as crianças, o trabalho infantil daquela época é muito bem representado, ficando clara a desesperança que muitas tinham de um futuro melhor. E mesmo aquelas que continuavam na escola, podiam sofrer do preconceito e deboche que vinham de professores conservadores.

Essa Menina, apesar de tudo, aos poucos, através do incentivo da família, vai entendendo o poder transformador da educação e com a ajuda de muitas pessoas consegue manter a sua curiosidade, não desistindo de seus sonhos. 

Também através desse acompanhamento da vida de Esperança, podemos fazer uma análise do papel da mulher através dos anos. Ainda com os impedimentos, a liberdade é conquistada aos quinhões, desde o simples poder andar na rua sozinha até o viajar o mundo da mesma forma. O triste é pensar que esses tópicos não estão totalmente superados nos dias de hoje mesmo com os avanços retratados no livro. 

Meu único problema durante a leitura foi com o uso um pouco exagerado dos estereótipos. Principalmente quando se referia as raças e os lugares comuns que sempre pensamos sobre elas, como nas personalidades. Embora isso seja um ponto fraco, o livro faz uma bela reflexão sobre as relações e as bases nas quais construímos nossas emoções.

Uma melancolia boa se instala pelas páginas, fazendo o leitor refletir sobre o passado e o próprio futuro, quando chegar naquela hora em que olharemos para trás e as pessoas, os lugares, os desejos que tínhamos já terão ido embora. 

AUTOR(A): Tina Correia
PÁGINAS: 272
EDITORA: Alfaguara
LANÇAMENTO: 2016
ONDE COMPRAR: Submarino

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