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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [LIVROS] RESENHA - BARBA ENSOPADA DE SANGUE
Author: Jéssica Ohara
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Com uma escrita ao mesmo tempo controlada e sensível, Barba Ensopada de Sangue fala de amores perdidos, conflitos familiares e segre...


Com uma escrita ao mesmo tempo controlada e sensível, Barba Ensopada de Sangue fala de amores perdidos, conflitos familiares e segredos inconfessos. 

No quarto e tão aguardado romance de Daniel Galera, um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.

Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor empreende uma investigação sobre o misterioso Gaudério, esquadrinhando as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de um modo peculiar, o professor estabelece relações com alguns moradores: uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. Aos poucos, ele vai reunindo as peças que talvez lhe permita entender melhor a própria história. 

É também com lacunas e peças aparentemente díspares que Galera constrói sua narrativa. Dotado de um senso impecável de ritmo, ele alterna descrições ricas em sutileza e detalhamento com diálogos ágeis e de rara verossimilhança, que dão vida a um elenco de personagens inesquecíveis.


 Quem nós somos? No final da leitura de Barba Ensopada de Sangue, essa foi a pergunta que começou a assombrar os meus pensamentos. Se você não soubesse como é a aparência das pessoas amadas, como as identificaria? Quais gestos, sinais ou hábitos as fariam reconhecíveis para você? E nesse caso, como você seria reconhecido pelos outros? Daniel Galera nos faz mergulhar num momento de auto reconhecimento, de descobri o que nos diferencia de todas as outras pessoas, será o sorriso de meio de lado ou o hábito de falar sussurrando sem perceber? O que é marcante? 

 Temos um protagonista sem nome. Uma ferramenta de narrativa não tão rara como parece, mas pelo menos para mim, é sempre fascinante. Requer uma capacidade de criar um personagem denso, firme, que fique em nossas mentes sem precisarmos saber sua identidade. O autor mostra toda essa competência ao ir além da falta de uma denominação. Ele faz um homem que sofre de uma doença chamada prosopagnosia, que é a incapacidade de reconhecer faces, tendo que passar a vida toda se adaptando e procurando sinais para saber quem é a sua família, seus amigos, desconhecidos, etc. E no final é isso que os leitores também tÊm que fazer: não sabemos o nome do principal, sabemos os nomes de quem interage com ele e suas características e a todo momento temos que redescobrir quem é quem.

 Os diálogos contribuem muito para essa configuração. Não se usa travessão, e muitas vezes eles começam dentro do parágrafo sem separação de linhas, como se estivéssemos na mente do personagem principal (que não é o narrador) e percebêssemos tudo como ele. As frases são curtas e simples, atingindo um grau de emoção que ás vezes não dá no peito, o tipo de história que fica na sua cabeça, se torna um lugar, não um momento, daqueles que você pode voltar para reviver as coisas boas e tristes.

 Se as identidades são mistérios, a própria realidade também é um. Nós conhecemos uma pequena cidade litorânea de Santa Catarina, que parece estar numa áurea encantada. Tem todos os problemas que uma cidade pode ter, mas ela tem algo que faz as pessoas serem felizes de alguma forma. É difícil explicar Garopaba, só sei que dá vontade de ir para lá, ver o que tem nesse lugar, as pessoas, as relações construídas lá são diferentes ou talvez seja tudo um devaneio e na verdade a crueza firme dos sentimentos seja o que atrai quem lê a história. Não importa muito o porquê, só que não julgamos o protagonista por ele querer tanto descobrir a verdade, a essência daquele lugar.

 Mas essa mágica que está em Garopaba não significa bondade ou beleza, na história tentamos descobri o que aconteceu a Gaudério, avô do protagonista, e vítima de um assassinato na década de 70 que nunca foi explicado, só sabemos que a raiva coletiva pode ter sido a causa. Nas primeiras duas páginas do livro é dito o final do personagem principal, e o que nós vemos é o caminho dele até ali. E é isso que queremos descobrir sobre a história de Gaudério, quem era ele, como viveu e morreu.

 Quem não tem na família aquela história mal explicada em menor ou maior grau do que essa? Aquele parente que ninguém fala direito o que aconteceu ou você só sabe por partes. Esse é um ponto muito bem explorado no livro, famílias são um berço sem fim de mistérios, brigas, confusões e amor. O que o leva a essa cidade é o desejo de saber sobre o passado, vontade que, em algum momento da vida, todos temos.

  Ao falar sobre o poder coletivo de um lugar na hora de acabar com uma ameaça, o autor também nos leva ao papel das tradições na vida cotidiana, ou melhor, no próprio modo vida de uma cidade. É possível sim ser um estrangeiro dentro do seu próprio país, cada canto é uma visão de mundo e realidade diferente, e há sempre a possibilidade da rejeição, nisso dá para questionar se o melhor é se adaptar ao lugar ou fazê-lo se adaptar a você, no final, qualquer decisão tomada nesse sentido deve respeitar a essência do que se é.

 Eu pareço estar viajando muito com esses papos de essência hahaha, mas é porque, de um jeito simples e nada pedante, a história no faz pensar nisso, indo além de uma relação com uma espiritualidade. Como eu disse antes, a gente fica se perguntamos “quem somos”, e isso acontece por essa eterna dúvida sobre a alma, o futuro. Através da visão de alguém que não guarda a memória de um rosto, vamos sentindo que as pessoas são muito mais complexas do que pensávamos, essa sensação fica ainda mais forte quando encaramos outro tema explorado na história: a morte. Ao vermos esse dinamismo e universo que existe em cada um, vai ficando cada vez mais difícil aceitar o “desaparecimento” de alguém com a morte, tudo aquilo que ela foi não estar mais lá. Na história muitos elementos do budismo, união com a natureza e o que acontece depois, são trazidos à tona sem muitas conclusões, mas com uma faísca deixada acesa em cada leitor.

 Há muitos personagens nesse livro, mesmo que só estejam por poucas páginas, que ainda são lembrados ao fim da leitura e depois. Cada sentimento despertado por eles é único. Galera tem essa capacidade de falar do amor sem ser piegas, e amor em todas as formas, nós vemos as relações sendo construídas sem forçar a barra, é natural como nas nossas próprias vidas. E como nelas não são perfeitas, talvez seja essa falta de idealização que me atraiu, é o tipo de história que você não sonha em viver, mas que você se identifica porque é muito próxima daquilo que se conhece.

 E com isso em mente, posso dizer que um dos tipos de relacionamentos mais bonitos que ele construiu foi o da amizade, que muitas vezes não precisa ser profunda ou muito íntima, mas que tem aquele tipo de calor que emana e acolhe quem está perto. Estranho pensar que um livro foi capaz de demonstrar esse sentimento tão bem, mas mais uma vez é aquilo da realidade próxima e relacionável.

 Entre tantas belas relações, destaco uma poderosa, que é a do protagonista com o mar. Ele é um nadador profissional, que participou de provas internacionais e tem uma paixão inexplicável pelo oceano. Eu moro em uma cidade litorânea, e mesmo não nadando bem, consigo entender esse amor e pavor que o mar causa na gente. Em Barba Ensopada de Sangue, ele é um personagem também, um dos mais importantes que governa a vida e morte daquele lugar, e o único que sabe de todos os segredos. Em algumas páginas é possível sentir toda a sua força e a brisa quase chega a bater no rosto.


 Quando terminei de ler esse livro fiquei com muita raiva. O nadador é tão teimoso, tão isolado e muitas vezes apático ao mesmo tempo que ele é gentil, caloroso e bom. Eu fiquei chateada, as 400 páginas passaram como um vento, mas senti que o autor me deve, eu preciso saber mais sobre a vida naquele lugar, cada aventura, cada relação, eu precisava de mais 400 páginas para me acalmar um pouco.

  Escrevi toda essa resenha com uma espécie de sufocamento, de verdade. Eu sinto que escrever sobre o livro é me despedir dele mais uma vez, como aquele amigo que vai viajar por um tempo. Sei que voltaremos a nos encontrar uma hora, mas mesmo assim é complicado. E agora só tenho dele as fotos das idas a praia, dos encontros nos bares e as lembranças das discussões à meia noite sobre o universo, a vida e tudo mais.


P.S.: E se essa resenha apaixonada não te convenceu, tem uma cachorrinha muito fofinha na história que vale a pensa conhecer <3
P.S.2: Tem três capas com cores diferente *-*

AUTOR(A): Daniel Galera
PÁGINAS: 424
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2012
ONDE COMPRAR: Submarino

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