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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [LIVROS] RESENHA - DE MIM JÁ NEM SE LEMBRA
Author: Jéssica Ohara
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Ao abrir uma caixa pequena e ignorada, encontrada no quarto da mãe falecida, a caixa 'onde a mãe abrigara seu coração ...



Ao abrir uma caixa pequena e ignorada, encontrada no quarto da mãe falecida, a caixa 'onde a mãe abrigara seu coração esfrangalhado', o narrador se depara com um maço de cartas cuidadosamente enfeixadas com um barbante. Escritas pelo irmão, vitimado por um acidente, dirigidas apenas à mãe, essas cinquenta cartas reúnem um passado. A redescoberta da sensibilidade desse irmão desaparecido provoca uma reconstrução das antigas memórias familiares, desdobrando-se em dúvidas - como teria realmente acontecido essa perda?

Não me lembro de rostos, indumentária, situações, nada, somente vozes que ecoam suspensas num universo sem relógios nem idades.

Estávamos escolhendo os livros da parceria e vi o título De mim já nem se lembra. Algo foi conquistado dentro de mim e de repente precisava lê-lo, o nome prometia uma leitura densa e cheia de emoções. Sabe quando você olha alguém no transporte e no momento seguinte está planejando a sua vida com essa pessoa? Sou eu com alguns livros.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando ele finalmente veio para as minhas mãos, foi a qualidade física do livro. Sim, não é enrolação, eu presto muita atenção nisso, faço faculdade de Conservação, e vê um papel tão bom chega a dar êxtase hahaha. Mas com isso veio minha decepção também, as páginas eram grossas o que significava que o livro era curto, o que se tornou mais triste ainda quando comecei a lê-lo e percebi que gostei dele até mais do que eu tinha suposto.

Primeiro, tem um mistério: o livro é baseado em fatos reais, mas ele pode ser todo escrito com as verdadeiras cartas do irmão do Luiz Ruffato ou ser só uma invenção que tenta completar a ausência deixada pela morte. Eu precisei procurar essa informação após a leitura, a todo momento ficava dividida sem saber se era verdade ou não, e até agora não fui esclarecida.

Como disse, é um romance epistolar que nós já sabemos o final. Célio morre num terrível acidente de carro logo após seu aniversário de 26 anos. Através das cartas que ele envia para a mãe nós podemos acompanhar esse menino do interior se tornando homem na cidade grande. A história tem o tema da saudade muito forte, através da escrita sabemos que Célio sente muita falta de casa e também através dela sabemos que Luiz sente muita falta de Célio. Seria essa dor tão grande que ele precise reinventar a voz do irmão para preencher esse vazio?

Acho que quando se passa dos 20 anos, a maioria das pessoas pode contar um caso de ausência, de alguém que partiu para nunca mais. Essa pessoa sendo próxima ou não, você ainda é capaz de saber que tem um espaço aberto, muitas vezes ter essa sensação de que aquilo não está certo. E isso fica muito forte quando são mortes inesperadas, de gente que você viu no dia anterior e que estava bem, feliz e de repente não está mais lá. Consegui me identificar muito com essa necessidade do autor de revisitar o irmão mais uma vez, tentar entender aquela narrativa interrompida, de uma promessa de futuro.

Através das cartas de Célio conseguimos ver como uma consciência é capaz de mudar tendo os princípios certos. Criado numa cidade pequena, muitas das ideias que ele carrega são conservadoras e de horizontes limitados, mas conforme o tempo passa ele consegue ver além, perceber as verdades que o cercam, começar a lutar pelos seus direitos e perceber os direitos dos outros. O livro acontece no meio da ditadura militar e com a voz do protagonista é possível ver a germinação da organização dos sindicatos, o apoio e confiança gerado entre aqueles que sofrem das mesmas explorações. 

Com uma escrita sensível, Luiz Ruffato nos faz chegar ao âmago de uma tragédia familiar que rondou sua família ao longo dos anos. E com várias dúvidas não respondidas. O que teria acontecido com Célio? Ele teria se envolvido mais com o sindicato? Ele teria sido perseguido? Ele casaria? Teria filhos? Ele seria feliz? Ou no final iria voltar para Cataguases fugindo da pressão de Diadema? Mas ele está morto e só restam os questionamentos.

Há um tempo atrás fiz uma escolha de me dedicar mais a literatura brasileira e não venho me arrependendo. Estou fazendo um caminho de volta, as primeiras leituras que lembro incluíam muitos autores nacionais Pedro Bandeira amor eterno e depois de um tempo fui me afastando, não me arrependo porque foi natural e não imposto por uma negação da cultura ou algo assim. Só que agora estou começando a sentir falta de ter novos referenciais, quero parar de indicar só os clássicos (Mas ainda te amo Machadão) e saber o que anda de novo por aí. Já posso dizer que percebi que fiz a coisa certa e estou muito longe de me desapontar.

O autor falando sobre o livro:



AUTOR(A): Luiz Ruffato
PÁGINAS: 104
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2016
ONDE COMPRAR: Submarino

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