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Yngrid Oliveira Yngrid Oliveira Author
Title: [LIVROS] RESENHA - CAPITÃES DA AREIA
Author: Yngrid Oliveira
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Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, este livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados ...



Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, este livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Em 1940, marcou época na vida literária brasileira, com nova edição, e a partir daí, sucederam-se as edições nacionais e em idiomas estrangeiros. A obra teve também adaptações para o rádio, teatro e cinema. Documento sobre a vida dos meninos abandonados nas ruas de Salvador, Jorge Amado a descreve em páginas carregadas de beleza, dramaticidade e lirismo. 

                                     
Capitães da areia é um clássico da literatura brasileira publicado em 1937 e, apesar de muito bem avaliado pela crítica e pelos leitores, sabemos a resistência da maioria das pessoas em ler esse tipo de livro devido a linguagem ser mais antiga, o que muitas vezes dificulta a conclusão e entendimento da história, ou mesmo uma leitura mais lenta para absorver melhor o conteúdo. Eu particularmente amo muitos livros clássicos, como Senhora e Dom Casmurro, mas muitos outros não me cativaram. Então, imaginem a surpresa prazerosa ao terminar Capitães da Areia e adicioná-lo na minha lista de livros preferidos.

Capitães de Areia se passa na Bahia do século XX, e conta a história de um grupo de meninos de rua “especializados” em roubar e aplicar golpes na sociedade mais bem abastecida e que se auto denominam capitães da areia devido a localização de seu esconderijo ser num trapiche. O livro acompanha a vida e acontecimentos da infância e adolescência de alguns desses meninos, bem como se tornaram meninos de rua, o porquê, e como fazem para realizar seus furtos. Jorge Amado descreve de maneira muito rica e bem estruturada a personalidade de cada personagem nos fazendo a desenvolver sentimentos por cada um deles. O que falar e sentir por  Pedro Bala, Volta Seca, Gato, Professor, Pirulito, Sem-Pernas e todos os outros capitães da areia? Tão jovens, mas já tão maduros. Tão independentes, já homens antes mesmo de terem oportunidade de serem crianças. 

Além desses meninos, aparece também um padre que os visita e luta para trazer Deus para a vida deles e um pouco mais de conforto para essas crianças, que se tornaram meninos de rua e ladrões devido às circunstâncias de suas ruas, assim como os de hoje. A grande diferença é que os capitães da areia roubavam para sobreviver e se alimentar, os de hoje, apesar de roubarem para se alimentar, também existem os vícios em substâncias ilícitas, uma fome mais insaciável. 

Ao desenvolver a leitura, passei por um misto de sentimentos exatamente como acontece no meu dia-a-dia ao me deparar com meninos de rua: num momento há a raiva e o medo por ser roubada ou molestada, mas por outro lado há a empatia por tudo o que eles passam, há o entendimento que nada do que acontece com eles é culpa deles. Mas no fim todos sabemos que tal situação precisa ser resolvida, mas qual a melhor solução? E estas são as críticas que este livro nos trás. 

O padre, apesar de lutar por eles, encontra-se sozinho, pois nenhum dos outros “homens de Deus” estão dispostos a enfrentar o governo ou o desgosto da alta sociedade para ajudar os menos favorecidos e delinquentes, mesmo que sejam apenas crianças. Podemos dizer que isso permanece igual? Eu diria que sim, os dirigentes de igrejas e a população se fecham na sua zona de conforto e esquecem-se dos mandamentos e da palavra divina para amar seu irmão.

Outro ponto importante é o descaso do governo com essas crianças e a “solução” escolhida pelos mesmos, o reformatório, onde agem com brutalidade para “salvar e consertar” a vida desses jovens. Enfim, só lendo para entender a maravilha e grandiosidade dessa obra.

Este livro é um típico exemplo de história atemporal, pois foi publicado no século passado, porém poderia muito bem ter sido escrito atualmente e nem notaríamos a diferença. Apesar do contexto e situações pesadas, a linguagem é fácil de ser entendida, possibilitando que mesmo aqueles que não gostem de clássico possam apreciar uma boa leitura.

Segue os trechos que mais me marcaram nessa história:

“Sem Pernas disse: - A bondade não basta. Completou: - Só o ódio”... “Pedro Bala botou a mão no ombro do Sem Pernas. – Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta.”

“Não tinham conversas de meninos, conversavam como homens. Sentiam mesmo como homens. Quando outras crianças só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que só homens sabiam resolver. Sempre tinham sido como homens, na sua vida de miséria e de aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua. E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por sim. Tinham sido sempre iguais a homens.”

“Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria.”

“Sem Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pôde ter carinho. E no dia que o teve foi obrigado a abandonar porque a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança. Se fizera homem antes dos 10 anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de criança abandonada.” 




Título: Capitães da Areia
Autor: Jorge Amado

Editora: Companhia das letras
Páginas: 256
Ano: 2000, edição
Onde comprarBusca pé
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