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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [LIVROS] RESENHA - VOLTAR PARA CASA
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Quando Frank Money volta da Guerra da Coreia com mais cicatrizes do que as visíveis no corpo, encontra um mundo racista e desfigurado...


Quando Frank Money volta da Guerra da Coreia com mais cicatrizes do que as visíveis no corpo, encontra um mundo racista e desfigurado. Durante os anos de sua ausência, sua irmã Ycidra sobreviveu como pôde a uma sociedade machista e opressiva, em que as mulheres são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Ao se reencontrarem na pequena cidade de Lotus, na Geórgia, onde nasceram, os irmãos revisitam memórias da infância, e Frank retoma sua experiência traumática no campo de batalha para redescobrir a força e a coragem que já não acreditava ter. Um romance estarrecedor sobre a forte ligação entre irmãos, a resinificação de um passado violento e a volta para casa. 

De quem é esta casa?
De quem é a noite que não deixa entrar a luz aqui?
Me diga, quem é o dono desta casa?
Não é minha.
Sonhei com outra, mais doce, mais clara 
com uma vista de lagos que barcos pintados atravessam;
de campos largos como braços abertos para mim.
Esta casa é estranha.
Suas sombras mentem.
Olhe, me diga, por que minha chave encaixa na fechadura?

Voltar Para Casa foi um livro que eu li bem rápido, numa viagem de trem, mas foi um dos que eu mais demorei para escrever sobre. Porque algumas partes são muito dolorosas, os personagens são tão reais que eu sentia que, se virasse o rosto, poderia ver o Frank do meu lado, o que fez a empatia pelas jornadas deles ser maior.

A crueza da realidade é um aspecto bastante explorado. Na família de Ycidra e Frank todos, de alguma forma, carregam marcas muito profundas de dor e infelicidade. Há aquela sombra de raiva e injustiça que tem aqueles que não puderam escolher o próprio destino, sempre empurrados de um lado a outro, fugindo da violência. O que é de se esperar de uma família negra, pobre, nos anos 50, em pleno regime de segregação racial, principalmente quando se vivia na região rural do Sul dos Estados Unidos.

A autodefesa óbvia da mente para combater a tristeza de um lugar é o desejo de fugir. Ycidra e Frank fazem isso, partindo do mesmo ponto pegam trilhas completamente diferentes e iguais. Os dois estão buscando um lugar, um alguém, para se sentirem completos. Aquela sensação de um porto seguro, a autora nos faz questionar o que é verdadeiramente uma casa.

Um dos pontos mais bonitos do livro é esse, da dependência versus o amor. Que não se pode esperar que outra pessoa de alguma forma encha o vazio que muitas vezes se forma dentro de nós, ninguém vai ser grande o suficiente para isso. Que o verdadeiro amor, o verdadeiro amor por nós mesmos, é uma construção muito mais complicada e difícil, mas que vale mais a pena do que depositar todas as nossas esperanças nos ombros do outro.

Como diria Mama Ru

Através da juventude deles, vemos as decisões, essas deixaram cicatrizes aparentes na alma de cada um. É difícil julgar essas escolhas como ruins quando se pensa naquela ânsia do desespero, da última tentativa de se salvar. Em muitos momento da história, senti que os personagens estavam em uma corda bamba e o medo de cair era a única coisa que os impulsionava.

Frank nunca saiu da guerra porque ela continuou dentro dele. Matando cada espaço de paz em sua vida, ele é um andarilho perdido, onde a única bússola que ele tinha, seus princípios morais, foram deturpados e pisados em nome de interesses e autoridades que não se importam. Não dá nem para dizer que ele carrega a culpa simplesmente porque ele ainda não conseguiu mensurar tudo que aconteceu e que ele fez, ele está em estado de choque boa parte do livro.

Já Ycidra vive outras batalhas. Travadas com uma sociedade que não dá valor para o seu futuro, que quer só que ela aceite que nunca será nada. Particularmente, fiquei muito orgulhosa dela, que, por mais que seus planos não tenham ocorrido do jeito previsto, ela não parava de tentar. Ela nunca desistiu de si mesma.

Talvez a marca mais forte aqui é a do valor do ser humano. Quando a vida não vale nada aos olhos dos outros, o que pode ser feito? Como honrar aqueles que não puderam ser ajudados? E quando você ouve tanto sobre o quanto você é descartável, acaba acreditando nisso? 

Toni Morrison fala sobre fraternidade de um jeito único, ela nos mostra esse companheirismo nascido entre pessoas com o mesmo sangue, mas fortalecido pela alma. Frank e Ycidra estão juntos mesmo quando não estão, um lembra do outro, um precisa do outro, não é uma obrigação.

A história não é sobre sofrimento, ela é sobre força. Sobre que é possível sobreviver, é possível ter alguma dignidade, mesmo após as piores mágoas e decepções. Se as pessoas que te amam estão perto, você pode ter apoio nelas para que seja possível se encontrar novamente. O livro é muito delicado falando sobre o melhor que pode ser visto nas pessoas desde que esteja disposto a realmente olhar.

AUTOR(A): Toni Morrison
PÁGINAS: 136
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2016
ONDE COMPRAR: Travessa
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