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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [FILMES] CRÍTICA #72 - A CHEGADA
Author: Jéssica Ohara
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Há uns dois meses atrás o trailer de A Chegada foi liberado, e em essência, foi uma péssima experiência, além de contar demais sobre a...

Há uns dois meses atrás o trailer de A Chegada foi liberado, e em essência, foi uma péssima experiência, além de contar demais sobre a história, dava um ar muito maior de Blockbuster do que o filme realmente era. Mas isso não o deixou menos intrigante, pois a possibilidade de uma linguista de ser a heroína não surgia toda hora.  Ainda mais curioso era o fato da história ser baseada no conto: História da sua vida do Ted Chiang, que a propósito foi uma das melhores leituras do ano. A grande questão era se Denis Villeneuve conseguiria colocar em quase duas horas de filme toda a complexidade daquelas 20 páginas. Nesse caso, o objetivo foi alcançado com maestria.



O filme trabalha com vários planos de aprofundamento da história. No primeiro, temos 12 naves que aparecem em pontos diferente do globo sem que haja uma aparente razão ou ligação entre elas. São feitas de materiais desconhecidos pelo homem e não há nenhum indicio da tecnologia que as faz plainar no ar, de tempo em tempo uma janela se abre e é possível interagir com os visitantes. É nesse ponto que já vem um dos melhores aspectos, a caracterização dos alienígenas e da própria nave é muito bem-feita, não se deixando cair em uma imagem de ficção cientifica barata e comum, uma tarefa homérica considerando que a descrição dos seres corresponde a criaturas de sete membros e corpos gelatinosos. Não há um estranhamento nos efeitos ou um hiper-realismo que geralmente torna algo ainda mais artificial.

A Dra. Louise Banks, renomada linguista, é chamada para tentar interpretar a linguagem alienígena. Seria pouco dizer que Amy Adams brilhou nesse papel, todos os momentos que pediam uma interiorização da personagem ou algo que só podia ser visto pelo seu olhar foram trabalhados de forma tão natural por ela, que era impossível não acreditar na veracidade de tudo aquilo. E é a partir dela que entramos em outra camada, onde começamos a perceber sobre o que realmente é o plot do filme.


A ordem linear do tempo é quebrada de várias formas, há um uso de flashbacks e flashforwards que deixa o espectador em um constante estado de êxtase, onde não se perde a coerência. É possível entender o que está acontecendo ao mesmo tempo que nos encontramos surpresos por entender. O objetivo da missão de Louise é compreender uma nova língua, com todos os significados possíveis da palavra “entendimento”, e essa é a sensação também de quem assiste, de quando começamos a aprender expressões estrangeiras e nos sentimos surpresos de como o nosso cérebro consegue fazer isso.  A mudança de abordagens e métodos para se tentar chegar a solução é como funcionam essas interpretações.

A chave para saber todas as questões envolvendo os heptapods(como são chamados os alienígenas) está na decodificação de sua linguagem. Mas não basta saber o significado das palavras e as suas formas, é preciso também perceber como funciona o pensamento da sociedade que a utiliza, é necessário aprender a pensar como eles. E é através disso que chegamos a uma terceira camada, onde Denis Villeneuve explora essa relação, mostrando como a língua define nosso próprio modo de sentir o tempo.

O tratamento da fotografia e da paleta de cores também contribuem para que apreendamos aos poucos com que objetivos os alienígenas vieram e como funciona sua visão de sociedade. Se durante a história  Louise passa a ver com os olhos deles o mesmo efeito também se encontra no espectador, há o destrinchar de uma questão moral entre ato e consequência. Nós somos levados a nos libertar do ciclo inexorável da vida a partir do conhecimento do que vai acontecer, mas não através da aceitação do inevitável, e sim com a percepção de que não existe um final a se temer, existe um trajeto que pode ser apreciado.

Não é todo dia que se sai estarrecido e choroso de um filme com esse tema. Mas também não é todo dia que se vê algo tão reflexivo e pungente como A Chegada.


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