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Title: [LIVROS] RESENHA - PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS: UM MANIFESTO
Author: Dessa Piccinini
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Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com ...

Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.

A resenha de hoje é muito mais uma exposição de opinião crua e pessoal do que mera resenha literária. Isso se dá pelo fato que o livro da diva da porra toda Chimamanda Ngozi Adichie não traz um enredo fictício e sim uma carta escrita pela autora a pedido de uma amiga. 

Com 15 sugestões de como educar uma criança feminista, Adichie nos dá uma visão ampla da situação do gênero feminino na sociedade atual. Como feminista declarada (recomendo ler ou assistir a palestra do TEDx Sejamos todos feministas com resenha aqui do blog) Adichie perpassa pelas diversas construções culturais de gênero na Nigéria do século XXI que, de forma alguma, não representa apenas o país da autora: as situações descritas são vistas no dia-dia de todos os países do planeta. 

A primeira coisa que vocês precisam saber sobre mim é que sou feminista e levo a frase que a própria autora faz em sua palestra como conceito: "Feministas: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos". A segunda coisa é: eu ando estudando bastante sobre feminismo e tão logo, a leitura desse manifesto foi correlacionado com os estudos. 

A autora perpassa por diversas situações e eu facilmente teria muito o que escrever sobre cada uma das quinze sugestões dadas por Adichie à sua amiga, mas opto por destacar algumas situações que são corriqueiras na nossa realidade, mas se apresentam de forma tão obscura que, muitas vezes, se passam despercebidas. 

Chimamanda primeiro se dirige a amiga reforçando que ela não deve esperar ser a "mulher-maravilha". Que o conceito dessas mulheres superpoderosas que conseguem tomar conta da casa, dos filhos e do trabalho é um conceito preocupante e que exclui a responsabilidade do gênero masculino na relação familiar "Pai é verbo tanto quanto mãe" o que determina que o homem, de maneira alguma, deve apenas ajudar como eu odeio essa palavra e sim realizar as tarefas de forma natural: cuidar da casa e dos filhos não deve ter gênero! Agora, em quantas casas a mãe não se divide em mil para dar conta de tudo enquanto o pai fica seguro de que terá casa limpa, comida quentinha, roupa lavada e filhos bem educados? Essa crença que vem de uma construção histórica patriarcal se manifesta em inúmeros graus. Não foi recentemente que um homem famoso foi exaltado pela mídia por cozinhar? Oras, se ele come ele deveria cozinhar - mas a sociedade parece não perceber que essa pequena atitude perpetua uma desigualdade de gênero. 

Então a autora continua e entra no debate que eu, particularmente, acho um dos pontos mais importantes da desconstrução: os papéis de gênero. A ideia de que meu gênero define o que posso ou não posso fazer. Esse conceito precisa ser trabalhado, já que primeiro precisa-se entender o que é gênero. Eu pesquisei muito sobre o assunto e demorei muito a chegar em um conceito que fizesse sentido para mim, mas gênero é um conceito que, primeiramente, é mutável, construído pela determinada sociedade e momento histórico que se vive. Agora, sabendo que gênero e o sexo biológico não são a mesma coisa, a ideia de que, desde criança, somos influenciados a viver dentro da caixa de um gênero - seja ele feminino e masculino - impede que alcancemos nosso total potencial. Adichie conta que, no dia que foi comprar um brinquedo para a filha de sua amiga, a autora passou por uma assustadora experiência de perceber que os brinquedos classificados femininos eram passivos e se constituíam, basicamente, de bonecas e coisas de casa e, no mesmo momento, os classificados masculinos eram ativos e exerciam a criatividade da criança. A ideia de "você não pode pois é menina", "se comporte como uma menina" são ideias venenosas da sociedade e estão presentes até hoje. 

Aquela máxima de que as mulheres atuais foram criadas para serem de si mesma e não para o casamento até pode fazer um pouco de sentido, mas ainda se deve ter cuidado com a criação das garotas. Meninas são ensinadas que a grande realização da vida é o casamento enquanto meninos vêem isso apenas como consequência. E, não apenas isso, são ensinadas a velha falácia que "atrás de um grande homem há uma grande mulher". HA! Você não escuta o mesmo na forma inversa, não é? Você vai escutar algo como "o marido DEIXOU ela se destacar". Como se não fosse mérito da mulher, como se, de forma alguma, ela teria alcançado tal status se o homem não a tivesse permitido. Será que é só o meu estômago que faz um nó lendo isso? 

Recentemente eu li um comentário super hiper machista de  um homem falando que a roupa importa sim, que quando buscamos um policial, um padre ou um médico, identificamos-os pela roupa que usam. Adichie discorda: a roupa não tem nada a ver com a moral. E ser feminista também não tem nada a ver com perder a feminilidade. Não se correlacione a maneira de se vestir com a moral e nem o fato de ser feminista como excludente de feminilidade. Em pleno o século XXI ainda se escuta que a roupa determina a moral, que uma roupa curta faz a mulher vulgar enquanto homens sem camiseta no verão é algo corriqueiro e sem conotação sexual. A conotação sexual dada ao corpo da mulher por uma sociedade patriarcal não pode impedir que a vida de uma mulher e não deveria colocá-la em risco.

Esses são apenas alguns pontos de debate formulados pela autora no decorrer de pouco mais de 75 páginas. Tento ser sucinta e, provavelmente, firma em minha opinião. Contudo, de forma alguma sou rainha da razão e acho que o debate formula novas ideias e transfora o ser humano. Amo Adichie, ela é minha deusa  minha aspiração, mas estou sempre aberta a novos debates e novas ideias. 

Se eu recomendo a leitura? Mas é claro que sim! Para todxs. Pais, filhos, professores, educadores... A sociedade precisava ler isso e repensar em seus próprios atos. Mas já fico feliz se mais cinco, dez, cem mulheres tiverem acesso aos dizeres de Chimamanda e consigam refletir seu papel e mudar seu mundo pessoal. 
Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não "se". Não "enquanto". Eu tenho igualmente valor. E ponto final. 



Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Páginas: 94
Editora: Companhia das letras
Lançamento: 2017
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