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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [LIVROS] RESENHA - NORWEGIAN WOOD
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Em 1968, Toru Watanabe acaba de chegar a Tóquio para estudar teatro na universidade, e mora em um alojamento estudantil só para hom...



Em 1968, Toru Watanabe acaba de chegar a Tóquio para estudar teatro na universidade, e mora em um alojamento estudantil só para homens. Solitário, dedica seu tempo a identificar e refletir sobre as peculiaridades dos colegas. Um dia, Toru reencontra um rosto de seu passado: Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência Kizuki antes deste cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório.

Tem início então um período de grande dilema para o jovem Toru: uma encruzilhada entre o compasso de espera pela recuperação de Naoko e os encantos de uma outra vida, mais vibrante, personificada pela exuberante e liberada Midori mas também por sua relação com uma mulher mais velha, Reiko.

Ambientado em meio à turbulência política da virada dos anos 1960 para os anos 1970, Norwegian Wood, como a canção dos Beatles que lhe empresta o título, é uma balada de amor e nostalgia cuja rara beleza confirma Murakami como uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea.



"— Um deles gritou para mim: “O que você vai fazer sem saber essas coisas? O que tem na cabeça afinal de contas?” Foi a última gota. Não suportei mais. Concordo que não sou inteligente. Pertenço à classe operária. Mas quem suporta a humanidade é a classe operária. E não é justamente ela a explorada? Que revolução é essa que mostra ao povo palavras de significado desconhecido? Que transformação social é essa? Sem dúvida, eu quero melhorar a sociedade. Se alguém está sendo realmente explorado, é preciso tomar providências. E é por isso mesmo que faço perguntas. Não estou certa?
— Claro que está.
— Naquele momento, descobri o bando de pilantras que eles eram. Aqueles caras usavam essas palavras com ar de superioridade para conquistar as estudantes novatas, só pensando em enfiar a mão por baixo de suas saias. E no último ano da faculdade cortavam o cabelo bem curto e iam se empregar rapidinho na Mitsubishi, na IBM ou no Banco Fuji, casar-se com alguma beldade que nunca havia lido Marx na vida e ironicamente batizar os filhos com nomes da moda. É a isso que chamavam “destruição da comunidade industrial e acadêmica”? Tenho vontade de chorar de tão engraçado. E os outros calouros também eram horríveis. Apesar de nenhum deles entender bulhufas, eles riam e faziam cara de quem entendia tudo. E depois me diziam: “Não seja idiota. Mesmo não entendendo, é só concordar.” "

Norwegian Wood é um dos primeiros livros que Haruki Murakami escreveu, e o que tornou internacionalmente conhecido. Esse é o ponto de partida de métodos de escrita que ele aperfeiçoaria em obras posteriores, e é por isso que eu começo essa resenha revelando uma surpresa. Nesse livro não estão expressas a fluidez, homogeneidade e a crueza bem trabalhada que, para mim, são características muito fortes dos outros romances. Certas qualidades que fizeram falta, mas foram apaziguadas pela história em si.

O personagem principal é Toru que tenta conciliar a passagem para a vida adulta em um Japão marcados por mudanças e desobediência civil. Além das dificuldades do processo de crescer, ele ainda tem que lidar com a dor do suicídio de seu melhor amigo Kizugi e a estranha relação estabelecida com a namorado do falecido, Naoko. Preciso dar um trigger warning aqui, é um livro que fala sobre temas bem delicados como depressão, suicídio e saúde mental.

A melancolia envolve a história, gerada pelos problemas pessoais dos personagens e sua relações com a sociedade como também por estarem um mundo em profundas transformações que parecem engoli-los sem que eles possam lutar contra a maré. Toru sente a solidão como uma constante em sua vida, e o leitor também acaba sendo invadido por esse sentimento.

Outros personagens vão aparecendo pela história, Naoko, Midori, Nagasawa, Reiko, Ushima, o Nazista, alguns deles sem nomes. Nós os vemos, eles afetam Toru, Toru os afeta, mas eles nunca parecem se encontrar, como se toda loucura existente os tivessem isolados. Outro dia na faculdade, a neblina tomou o campus, e em pequena escala pude perceber como era ter que andar sem um pingo de certeza do que estaria a sua frente. Para os personagens de Nowegian Wood é como se a névoa fosse tão densa que encobrisse tudo e a todos, como se eles só pudessem ouvir chamados ao longe, sendo preciso uma força sobre-humana para transpôr-la.

Há algumas partes profundamente tocantes, onde os sintomas da depressão são descritos com muita clareza. Além de alguns discursos com impressões politicas muito fortes, que deixam qualquer um impressionado(como o que eu abri essa resenha).

Pelo titulo do livro já fica óbvio o amor de Murakami pela música, deixo aqui uma playlist com as que ele menciona durante a história e aquela que dá titulo ao livro.



Esse livro foi cedido gentilmente para resenha pela Companhia das Letras

AUTOR(A): Haruki Murakami
PÁGINAS: 360
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2008
ONDE COMPRAR: Aqui
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