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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: [REVIEW] ANNE WITH AN "E" - 1ª TEMPORADA
Author: Jéssica Ohara
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Às vezes é preciso deixar as pessoas amarem você, Marilla. Existem algumas coisas que lembram dias chuvosos, não aqueles que triste...

Às vezes é preciso deixar as pessoas amarem você, Marilla.


Existem algumas coisas que lembram dias chuvosos, não aqueles que tristes e melancólicos, mas os que deixam o ar limpo, com aquele cheiro de orvalho e o vento frio  se torna revigorante. Como se através daquela chuva você pudesse limpar sua alma e esperar, calma e cheia de esperança, para o céu se abrir. Eu acho que Anne with an E é algo desse tipo, capaz de te fazer despertar, de começar a ver em todas as coisas mundanas alcance para a imaginação.

Anne é uma órfã que é enviada para ser adotada à casa de Marilla e Matthew Cuthbert, dois irmãos que vivem sozinhos em Green Gables, em Avonlea. O único problema era que eles queriam um menino para ajudar na fazenda. O sistema de adoção que era usado no Canadá era bem parecido com o da Grã-Bretanha, onde uma criança poderia ser “adotada”, mas teria que trabalhar no local. Inclusive, Anne já tinha trabalhado para outra família antes.


Os dois primeiros capítulos e nos quais eu mais sofri (mentira, eu sofri em todos) são a resolução da situação da Anne na casa dos Cuthbert, nos quais conhecemos as personalidades de praticamente todos os personagens. Anne, ou melhor, Princesa Cordélia, me conquistou de cara, extremamente tagarela e cheia de imaginação consegue tentar fazer de uma vida tão violenta e cruel, algo mais doce e gentil. É muito bonito o quanto ela conseguiu manter da sua inocência mesmo tendo vivido em meio ao desprezo e abandono, ela sofreu muito, desde a exploração do seu trabalho, abusos físicos, e o bullying cometido dentro do orfanato.

Quando eu digo que ela é uma pessoa otimista não significa que seja boba ou de alguma forma tenha esquecido tudo o que aconteceu. Na verdade, boa parte do tempo ela está lutando contra os seus demônios interiores e o medo de uma próxima rejeição. Com constantes crises de ansiedade e um azar que Deus nos livre, Anne é quase uma anti-heroína, mas que tenta com todas as suas forças se manter firme e seguir em frente.

Talvez a série seja sobre isso, sobre superar dores e traumas do passado. Os irmãos Cuthbert tem muito disso para contar. Marilla é uma mulher forte, que não deixa transparecer seus sentimentos, sempre pronta para trabalhar e cuidar de sua família, mas que também sabe quando está errada, mesmo que ainda haja uma dificuldade em pedir desculpas. Quando ela acusou Anne de roubar o broche e depois percebeu que estava errada, foi com toda a certeza um dos momentos mais importantes da série(se você se emocionou quando acusaram o Chaves, imagina revendo isso com a Anne?).
Acho que toda ideia nova foi moderna um dia. Até não ser mais.

Havia um terceiro irmão que morreu, mas sua história não foi muito explorada na primeira temporada. Tanto Matthew e Marilla tiveram seus sonhos interrompidos por essa perda, acabando com amores e perspectivas de futuro. Matthew é um homem sensível, e um dos grandes partidários para que Anne ficasse com eles, é perceptível que ele precisava de uma alegria que o enchesse o coração de amor. E nada mais do que uma ruivinha gente boa para isso.

Três pessoas que , no mínimo, são disfuncionais, mas que juntas conseguiram se completar. E eles precisam estar unidos para enfrentar uma sociedade hipócrita e preconceituosa como a de Avonlea, onde não há progressismo de verdade, mas só uma tentativa de manter as aparências. Todos esses ódios são refletidos nas crianças, e aí, que a gente vê como essas miniaturas podem ser. Anne sofre tanto que chega a ser doloroso, tudo bem que ela fala besteira, mas as pessoas não tem o mínimo de paciência, inclusive o professor. Ela tem que lutar muito para ser aceita.

Mas eles tem aliados. Rachel que no começo provocou o primeiro chilique de Anne(e ela tem muitos hahaha) se mostrou uma pessoa leal que é capaz de mudar e ser solidária ao próximo. Diana é a prova de que há pessoas gentis nesse mundo, a devoção que elas se entregam a amizade é lindo de se ver. Temos também Jerry que é um pouco explorado na fazendo e que eu espero que deem o devido destaque na próxima temporada(para eu chorar mais um pouco). E, por fim, uma das mais linda surpresas que eu tive, foi a Tia Josephine. Um senhora firme, exigente, mas com um coração de ouro. A forma como exploraram a sexualidade dela foi linda, delicada e muito bem encaixada.

Essa série é tão linda não só por causa de uma produção impecável, com uma fotografia de tirar o fôlego. Mas, principalmente, pela atuação. Eles deram tudo de si, os gestos falavam mais do que qualquer roteiro. Desde os atores mirins até os adultos, a cena mais bonita que demonstra todo esse poder de expressão foi com a Marilla lendo as cartas do pai do Gilbert, o jeito como nós podemos sentir toda as suas esperanças, que agora nunca poderiam se concretizar.

Outra bela cena foi a do Gil no funeral, tudo concentrado no olhar, uma dor imensa e profunda de se ver sozinho no mundo. Que talvez só a Anne compreenda. Ainda é muito cedo para pensar em interesse românticos(apesar de já ser óbvio). Mas que a interação deles foi perfeita eu não tenho dúvidas.

Anne with an E não foi a série que pedimos, mas a que precisávamos(pelo menos eu). Fala sobre criação de filhos e também sobre a criação de pais. Fala sobre amizade, amor e, mais do que tudo, lealdade. Fala sobre família, que não precisa ser de sangue para ser família. Fala sobre crescer e fala sobre enfrentar monstros. O que faremos muito na próxima temporada, pelo menos de acordo com aquele gancho deixado. 

P.S.: A Anne podia ser bombeira, médica, escritora e o que mais sobrar.
P.S.2:  A produção foi baseada na série de livros Anne of the Green Gables de L.M. Montgomey, aqui no Brasil Anne de Green Gables que é um clássico muito amado no Canadá. Não falei muito porque ainda não li, mas já está na minha lista.
P.S.3: Anne é extremamente dramática, eu na vida.
P.S.4: Acho que ainda  há mais coisas envolvendo outros traumas dela, como a parte da Katie Maurice, que não sei se é uma amiga imaginária ou alguém que ela conhecia.
P.S.5: Ainda há tempo para Jeannie e Matthew acontecerem, Deus proteja o meu shipp.
P.S.6:A única coisa que realmente não gostei foi a música de abertura.
P.S.7: Eu dei uma pesquisada, e dizem que o problema com ruivos no Canadá era a associação com os descendentes de irlandeses que sofriam bastante xenofobia.
P.S.8: Diana e Anne bêbadas são tudo de bom.


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