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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: ASSIM NA TERRA COMO EMBAIXO DA TERRA: BARRO, MEDO E JAVALIS
Author: Jéssica Ohara
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Uma colônia penal isolada – um terreno com um histórico tenebroso de assassinato e tortura de escravos –, construída para ser um mo...


Uma colônia penal isolada – um terreno com um histórico tenebroso de assassinato e tortura de escravos –, construída para ser um modelo de detenção do qual preso nenhum fugiria, torna-se campo de extermínio. Espécie de capitão do mato/carcereiro, Melquíades é o algoz dos presos, caçando e matando-os como animais, apenas por satisfação pessoal. Os presos, cada qual com sua história, estão sempre planejando a própria fuga, sem saber se vão acabar mortos pelos guardas ou pelo que os espera do lado de fora da Colônia.



Um soco. Um soco na boca do estômago. E o pior que eu o vi se aproximar, mas estava paralisada pelo medo. A dor reverberou pelo meu corpo, deixando desnuda a minha fragilidade. Essa é a sequência de sensações que a leitura de Assim na Terra como Embaixo da Terra provocou em mim. Nesse ano, que está sendo, no mínimo, tenebroso, várias vezes me surpreendi pensando na dimensão da violência nas nossas vidas e o quanto ignoramos essa percepção para mantermos ares de normalidade. Ana Paula Maia está aí para retirar esse véu, abrindo um javali e deixando as vísceras expostas.

A história é sobre os últimos dias de uma Colônia Penal localizada em uma parte remota do país. Os presos que foram mandados para lá são geralmente frutos de um sistema prisional que não conseguiu corrigi-los e decidiu que não há mais meios de reinserção. Não se enganem, a Colônia não é uma prisão, a Colônia é a última parada.

“o confinamento de homens assemelha-se a um curral de animais. O gado é abatido para se transformar em alimento; os homens, por sua vez, são abatidos para deixarem de existir.”

A loucura vem do sistema e se implanta nos homens. Melquíades é o responsável pela prisão e consequentemente o primeiro que abandonou a sanidade entregando-se para um ciclo de violência. Ele esconde-se atrás de um discurso de vingança pelas vítimas que só serve como desculpa pela sua sede de sangue. Taborda é seu subordinado que representa não a lealdade, mas a obediência sem olhar crítico, preguiçosa, que prefere dizer “Estava seguindo ordens” do que admitir sua culpa.

Os presos se alternam entre a desesperança, desejos de fuga e ódio. Continuando a viver a mesma vida sem perspectivas que já tinham antes de ir para a cadeia, alimentados pela raiva e por instintos de sobrevivência. Destaca-se na história Valdênio, o preso já idoso que foi esquecido e não sabe nem mais quantos anos de pena tinha para cumprir. Ele encontra-se em um dilema entre esperar pela liberdade e saber que não tem mais nada para ele no mundo real.

Essa é uma história que pode ser facilmente transposta para a realidade. De um Brasil com um passado escravagista que deixa suas marcas de violência até hoje em todas as formas, principalmente quando se trata do lidar com as populações carcerárias. Ana Paula Maia é indicada pela crítica como uma das vozes mais promissoras da literatura brasileira atual. Ela também é mulher e negra, é esse importante destacar esse fatos, para nos fazer pensar, no Dia da Consciência Negra, quanto autores com essas características lemos nas nossas vidas? Dia 20 de novembro é dia de Zumbi, é de luta, é dia de lembrar. A literatura também é uma forma de resistência, um jeito de dizer estivemos e estamos aqui, e não seremos esquecidos.

O livro me lembrou muito essa música
E também deixo de indicação esse documentário ótimo da Netflix.

AUTOR(A): Ana Paula Maia
PÁGINAS: 144
EDITORA: Editora Record
LANÇAMENTO: 2017
ONDE COMPRAR: Aqui

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