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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: 2666: QUANTAS VEZES CABE O MUNDO DENTRO DO MÉXICO?
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Maior sucesso latino-americano em escala mundial desde Gabriel García Már...

































Maior sucesso latino-americano em escala mundial desde Gabriel García Márquez, Roberto Bolaño consolidou-se na direção contrária de seu predecessor, apresentando, em lugar da literatura fantástica que notabilizou o autor de Cem anos de solidão, um realismo cru, de humor sardônico e pessimista. É nessa chave que se desenrola 2666.
Fiel aos dois principais temas que atravessam toda a obra do autor chileno - violência e literatura -, o livro é composto de cinco romances, interligados por dois dramas centrais: a busca por um autor recluso e uma série de assassinatos na fronteira México-Estados Unidos.
A primeira história narra a saga de quatro críticos europeus em busca de Benno von Archimboldi, um escritor alemão recluso do qual não se conhecem fotos. Na segunda, há a agonia de um professor mexicano às voltas com seus problemas existenciais. O terceiro romance conta a história de um jornalista esportivo que acaba se envolvendo com crimes cometidos contra mulheres da cidade de Santa Teresa, no México (ficcionalização de Ciudad Juárez). Na quarta e mais extensa das partes do livro, os crimes de Santa Teresa são narrados com a frieza e o distanciamento próprios da linguagem jornalística das páginas policiais. E finalmente, na quinta história o leitor é conduzido de volta à Segunda Guerra, tornando-se testemunha do passado misterioso de Benno von Archimboldi.
Apesar do tamanho monumental - a edição espanhola de 2666 tem mais de mil páginas -, a trama enigmática mantém o leitor em estado de suspensão até as últimas palavras, quando só então o autor oferece a solução que permite compreender o conjunto do livro.
Recheado de reflexões sobre a natureza do mal, a relação entre cultura e violência e, de quebra, a situação do intelectual latino-americano, 2666 é um livro inteligente, surpreendente e de leitura fácil. Não por acaso, fez uma carreira tão assombrosa no contexto da crítica internacional e entrou para o rol dos grandes fenômenos literários da atualidade.







Todos os dias morrem mulheres em Santa Teresa.

Durante a volta ao hotel desapareceu a sensação de estar em um meio hostil, sem bem que hostil não fosse a palavra, um meio cuja linguagem se negavam a reconhecer, um meio que corria paralelo a eles e no qual só podiam se impor, ser sujeitos, unicamente erguendo a voz, discutindo, coisa que não tinham a intenção de fazer.

Era um dia chuvoso no centro da cidade, e por um momento, eu juro que vi Amalfitano na esquina, com um tratado de geometria nas mãos. O que era bem estranho considerando que da última vez ele o havia deixado pendurado no varal. 2666 vem a minha mente, em fragmentos, em sensações, em leves miragens no meio do mundo real. Por um momento eu olho uma janela e em seguida eu deixo de ver meu reflexo no espelho. Roberto Bolaño não criou um mundo novo, ele escreveu sobre a realidade, na realidade. Dessa forma nos tornamos seres vagantes entre a ilusão e o mundo físico, vendo os personagens nos nossos vizinhos, nos amigos, nos inimigos e na violência diária.

A ética nos trai? O sentido do dever nos trai? A honestidade nos trai? A curiosidade nos trai? O amor nos trai? A coragem nos trai? A arte nos trai? Trai, sim senhor, disse a voz, tudo nos trai, ou te trai, o que é outra coisa mas que no caso dá na mesma, menos a calma, só a calma não nos trai, o que também, me permite reconhecer, não é nenhuma garantia.

Tudo começa com a busca por Benno von Archimboldi ou tudo termina aí. Um escritor alemão cultuado pela elite acadêmica que ninguém nunca viu o rosto ou sabe o paradeiro. Um verdadeiro mistério, e como todos sabem, o segredo exerce fascínio. Começamos a história(ou as histórias) acompanhando quatro professores europeus que fizeram de Archimboldi o tema de suas pesquisas e, consequentemente, de suas vidas. 

Agora que eu já terminei de ler, entre as muitas coisas que me intrigam é o fato de eu nãos saber a narrativa de nenhum dos livros citados do alemão. Os títulos são claros e nos dão alguns indícios sobre o conteúdo, mas tudo não passam de algumas migalhas da verdade, como se faltasse algo que está tão perto que seria possível tocar, mas que nunca o fazemos.

Sou americano. Por que não disse sou afro-americano? Por que estou no estrangeiro? Mas posso me considerar no estrangeiro quando, se quisesse, podia agora mesmo ir embora andando, e sem andar muito, até meu país? Isso significa que num lugar sou americano, noutro sou afro-americano e em mais outro, por pura lógica, não sou ninguém?

O livro se divide em cinco que de acordo com os desejos de Bolaño podem ser lidos de forma independente, e até certo ponto funcionam separadamente, mas só em uma primeira camada. Há uma linha transversal que vai unindo destinos e definindo personagens. Alguns estão de certa forma em todas as histórias, e outros só dão o ar da graça por algumas páginas. Mas  todos são marcantes dentro de suas possibilidades.

Os personagens não fazem sentido e fazem ao mesmo tempo, em algumas vezes pode-se pensar que eles se perdem em devaneios, mas o honesto é dizer que reproduzem tudo o que acontece na realidade, cada gesto, cada detalhe é verossímil. Essa sensação de verdade é pungente, e eu uso pungente aqui porque é dolorosa, como uma faca que nos atravessa.

Digamos que a não leitura era o escalão mais elevado do ateísmo, ou pelo menos do ateísmo tal como o concebia. Se você não crê em deus, como crer num livrinho à toa?, pensava.

E é nessa parte que chegamos ao pano de fundo unificador: a morte de mulheres. Melhor, o assassinato, o feminicídio de mulheres que acontece em Santa Teresa há décadas, ou até mais tempo, é impossível saber. Elas não são só mortas, mas na maior parte estupradas e torturadas, brutal e definitivo. Mulheres em situação de risco, novas ou de meia-idade, operarias, pobres, putas, estudantes, crianças, donas de casa não importa. 

Por boa parte pensei que havia um assassino a solta, ou melhor, assassinos, o que também é verdade. Mas há algo mais, há ódio, há poder, há machismo, que faz com que os crimes se perpetuem. A parte dos crimes é descrita de forma direta, jornalística como num artigo. Foi o que mexeu mais comigo, sinto que algumas das mortes nunca sairão da minha cabeça, do meu coração. Há uma passagem especifica, não darei spoilers, na delegacia que foi uma divisora de águas, depois disso não só entendi que não havia mais esperança para as mulheres de Santa Teresa, como desacreditei do que acontece no hoje.

Mas o que é a festa permanente? Perguntou-se Sérgio González. Talvez o que diferencie alguns do resto de nós, que vivemos na tristeza cotidiana.

Não pretendo mentir nessa resenha, depois que se lê 2666 algo se solta, é impossível ver o mundo da mesma forma, torna-se menos otimista, mas de alguma forma mais livre. Nunca tinha antes me dado conta de quantas possibilidades estava me privando pelo medo, é como se eu tivesse plena noção da violência agora, mas isso me proporciona uma calma. Talvez seja a calma do desespero, não importa, eu estou calma.

Poderia falar de cada personagem, mas é infrutífero. São muitos e alguns só são possíveis de entender a existência dentro do contexto do livro. Um recurso que Bolaño usa muito bem é uma história dentro da história, o personagem que te conta um fato sobre a sua vida e assim vai desenrolando uma outra narrativa. Longe de ser cansativo, é um acréscimo muito bem-vindo, mais tempo com uma escrita magnifica.

Por fim, quero falar sobre livros, sobre o amor do autor pela literatura. Isso transpira em cada página, é como se ele tivesse uma relação que se baseasse no trabalho duro e incansável. Ele se esforça para fazer jus ao que ele ama.

Quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a história, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é uma proliferação de instantes, de brevidades que competem entre si em monstruosidade.

Esse livro foi gentilmente cedido pela editora 💓

p.s.: o mundo cabe inteiro e sobra espaço dentro do México.

AUTOR(A): Roberto Bolaño
PÁGINAS: 856
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2010
ONDE COMPRAR: Aqui
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