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Title: ENTRE IRMÃS: DUAS PESSOAS QUE SEGUIRAM CAMINHOS DIFERENTES, MAS QUE CONTINUARAM CONECTADAS.
Author: Mylla Santos
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Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora is...

Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.

Frances de Pontes Peebles nasceu no Recife e foi criada em Miami, Flórida. Formou-se em letras pela Universidade do Texas, em Austin. Seu livro Entre Irmãs (publicado originalmente como A Costureira e o Cangaceiro) foi traduzido para nove idiomas e recebeu muitos prêmios. Além disso, foi adaptado para o cinema pela Conspiração Filmes e para a TV pela Rede Globo, em formato de minissérie.

O título do livro em inglês significa a costureira, quando foi publicado no Brasil pela primeira vez ganhou o nome de A Costureira e o Cangaceiro, agora foi relançado pela editora Arqueiro com o título Entre Irmãs, mesmo nome do filme e da série. Para mim o título Entre Irmãs é o que melhor define o livro, pois a história é retratada pelo ponto de vista das duas, a ligação delas é muito presente em todo o livro. A Costureira e o Cangaceiro restringe a obra e exclui a importância de Emília para a história, pois ela também é protagonista.
"O olhar desta mulher é furtivo e perturbador. Arrisca a própria vida, protege os mais fracos do bandido e, com uma repulsa calada, permite que o marido cometa as maiores atrocidades. É insensível, mas também sentimental; fria, mas feroz - em suma, uma mulher. E que homem seria capaz de penetrar os mistérios de uma alma tão contraditória."
A adaptação para o cinema e televisão como o nome já diz é apenas uma adaptação e em minha opinião não é fiel. Sei que não daria para mostrar tudo que tem no livro, mas me irritou as mudanças que foram feitas, mudanças de cenas importantes, estou me segurando para não contar o que acontece. É um bom filme, mas não retrata os fatos do livro. Se gostou dele, tenho certeza que vai gostar bem mais do livro.

Pois o livro é maravilhoso, Frances tem uma ótima escrita, me ganhou na primeira frase e não me decepcionou. Ela está de parabéns pela obra que criou, somos inseridos no sertão de Pernambuco, passamos pela seca, almejamos a chuva junto com os personagens. Conhecemos a força desse povo que passa pelas adversidades mantendo a esperança. 
"Emília sentiu uma pontada no peito. Passou a semana inteira com a sensação de ter uma corda dentro de si, que ia dos pés à cabeça e estava amarrada ao coração. Quanto mais tempo ficasse naquela casa, mais o nó se apertaria."
Frances conseguiu retratar bem os conflitos daquela época: a seca que perdurou durante muitos meses e até hoje é um problema para os sertanejos, o coronelismo que impunha sua vontade, os cangaceiros que eram vilões e mocinhos ao mesmo tempo, a disputa política que assim como hoje coloca as pessoas umas contra as outras, o golpe de Vargas que iniciou um novo tempo no Brasil, a crise de 29 que prejudicou muitos, o direito de voto para as mulheres, uma grande conquista. Esse livro é mais do que a simples história de duas irmãs, é um pouco da história do Brasil. É difícil não se encantar.
"As pessoas são volúveis. Transformam em herói o primeiro homem que encontram, até que apareça um outro melhor. Não exite lealdade por aqui, Antônio. Só necessidade. As pessoas precisam de comida. Precisam de dinheiro e de segurança. Quem der mais será considerado herói. A recompensa oferecida pela sua cabeça vai apagar qualquer lealdade."
Emília e Luzia se completam, enquanto a primeira é romântica e sonhadora, a segunda teve que aprender a ser forte, durona. Apesar de alguns desentendimentos e implicâncias não se desgrudam, dói em Luzia imaginar a irmã indo embora e a deixando em Jaquaritinga do Norte, pois Emília sonha em morar na capital, Recife. É linda a conexão que as duas possuem, mesmo separadas. Como uma se preocupa com a outra e tenta proteger, mesmo distantes. 
"Emília costurava sempre o mais depressa possível, louca para ver o resultado final. Era disso que gostava. Já Luzia gostava do trabalho em si. Gostava da precisão necessária ao se tirarem as medidas, do desafio de transpor essas medidas para o tecido, do cuidado meticuloso para cortar o tal tecido em várias partes e da satisfação de juntar umas às outras para formar um todo."
São mulheres fortes que vivem de formas opostas, Emília realiza seu sonho de morar na capital, mas precisa se adaptar e ser aceita na sociedade. Enquanto isso Luzia conhece os desafios da vida no cangaço. Gostei muito do livro ser narrado pelas duas, assim podemos ver os dois pontos de vistas. Além disso, esses capítulos são intercalados, são longos e subdivididos. A história se inicia com Emília no presente, tudo já aconteceu e ela vai narrando esses fatos. 
"Mulheres respeitáveis não tinham uma profissão, portanto a loja de Emília, que fazia tanto sucesso, era considerada um passatempo, como fazer crochê ou se dedicar a obras de caridade, Emília e a irmã eram costureiras. No interior, essa era uma profissão tida em alta conta, mas, no Recife, essa respeitabilidade não existia - as costureiras eram como empregadas ou lavadeiras."
Os personagens secundários também merecem destaquem, pois conseguem atrair nossa atenção: tia Sofia com toda sua rigidez e dedicação em ensinar as meninas uma profissão, ser costureiras como ela. Carcará forte, sábio e destemido, mas também humano e com fraquezas. Degas com seus conflitos e dissimulação, que optou por se isolar e não compartilhar com Emília sua situação. Lindalva, amiga fiel, a vida de Emília na capital teria sido mais difícil se não fosse por ela. O doutor Eronildes que mais de uma vez teve papel importante na história de Luzia.
"Tinha feito uma péssima escolha. E todos à sua volta pareciam desconfiar do que ela agora sabia: que Degas era incapaz de tecer aqueles vários fios invisíveis que fazem a felicidade de uma mulher."
Só tenho elogios para esse livro e espero que muitas pessoas possam aproveitar essa leitura, que une ficção e fatos reais. É uma ótima indicação para aqueles que querem conhecer um pouco da década de 20 e do sertão nordestino. 




TÍTULO: Entre Irmãs
TÍTULO ORIGINAL: The Seamstress
AUTORA: Frances de Pontes Peebles
EDITORA: Arqueiro
PÁGINAS: 576
ANO: 2017
ONDE COMPRAR: Amazon

Livro cedido pela editora para resenha.
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