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Title: DEBATES DE SERIADOR #02 - A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTAÇÃO LGBT EM SÉRIES COTIDIANAS
Author: Rhayller Peixoto
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"A parada é que personagem lgbt ao menos para mim precisa sair da bolha daquilo que a gente quer ser (não que isso seja errado, ...


"A parada é que personagem lgbt ao menos para mim precisa sair da bolha daquilo que a gente quer ser (não que isso seja errado, mas falo aqui de variedade) e ser também aquilo que a gente é: a diretora da escola, o homem trans do orfanato, o carinha enrustido da igreja. É isso que no fim do dia me faz refletir o quanto pessoas sofrem por gênero e sexualidade: a diversidade de histórias em inúmeros contextos."

Falar de representatividade LGBT em tempos de produções inclusivas e que facilitam o acesso a esse tipo de pauta é importante. Seja pelos exemplos mais famosos da atualidade como Sense 8 ou séries mais antigas que abordaram o assunto tal como Queer as Folk e The L Word, produtos que se direcionem a esse público é pertinente. No entanto, se existem shows inclusivos do ponto de vista de quem é parte dessas minorias, também se destacam aquelas séries que não são propriamente ditas LGBT's, mas que merecem notoriedade por trazerem ao cotidiano personagens que conseguem transparecer boas histórias desse público.

O próprio conceito de série LGBT é questionável partindo do ponto de que séries falam sobre a sociedade e suas nuances. Por isso, destaquemos aqui que esse tipo de seriado não tem apenas personagens LGBT's mas é direcionada a esse público. Entram nessa categoria shows como Looking, Cucumber, Banana, entre outras. O questionamento de hoje fica por conta das séries que não são direcionadas a esse nicho mas que se fazem importante por suas narrativas inclusivas.

Faz parte da trajetória de qualquer seriador buscar programas que reafirmem sua identidade. Até quando não há uma ligação direta com o que se vive, traços da personalidade são fáceis de se descobrir através das séries que as pessoas assistem. Sendo assim, é quase que automático que as minorias procurem programas que atendam suas demandas. No entanto, uma gama de produtos na televisão não ditos LGBT’s conseguem trazer debates importantes para a causa. Esse impacto às vezes é maior do que o de shows consolidados.



A programação de nicho tem seu mérito em uma época que a representatividade põe em destaque grupos não favorecidos. Todavia, as tentativas de reproduzirem um cotidiano coerente com o que se vive precisa acompanhar as tendências de mercado. De uma maneira ou de outra a intenção de um produto televisivo é a venda e para que isso aconteça é preciso adequar essa representatividade ao que a demanda ordena. Isso tem seu lado positivo: o aparecimento de shows que retratem minorias. O contraponto é justamente como esse grupo é representado.

A crítica que se faz ao modo de inclusão que o público LGBT tem tido em séries que se propõe a serem a voz de movimentos sociais é a de que as maiores questões da vida de qualquer ser humano são esquecidas - e aqui eu destaco que isso não é peculiaridade das minorias em séries - em detrimento de um estilo de vida regrado a farras, pegação e discussões rasas sobre o que é de fato a vida de quem se encaixa nesse grupo. Séries de cotidiano não possuem esse problema, se desprendem do rótulo de vender para minorias e possuem uma liberdade maior para discutir o assunto.

Em 2006 a ABC leva ao ar a primeira temporada de Brothers & Sisters. A trama contava a história dos Walker, uma família que vê seus segredos virem à tona após a morte de seu patriarca. O estilo novelão clichê escondia, no entanto, um dos melhores personagens LGBT’s que provavelmente quem está lendo esse texto não conheceu: Saul Holden. Funcionando durante as primeiras temporadas como um homem que sempre prezou pelo bem-estar da família, Holden mostrou-se uma bela surpresa com o passar do tempo. A peculiaridade se deu por conta de Ron Rifkin, que tinha 67 anos quando começou a interpretar Saul, um homem que mesmo na terceira idade não havia se libertado das amarras que o impediam de viver sua sexualidade de forma plena. Saul Holden foi um coajduvante que teve um papel importante na consolidação de Brothers & Sisters como uma série que soube trazer à tona algo relevante: também existem LGBT's idosos e sua representação é quase nula dentro de shows (sejam eles americanos ou não).



Recentemente um personagem vem chamando a atenção em Greenleaf, série da OWN sobre uma família que é chefe de igreja em Memphis. Predominantemente negra, a série traz um jovem chamado Kevin. Pai, cristão, amante de sua família e gay. Os estágios do entendimento de sua orientação sexual são acompanhados pelos espectadores da série, que puderam perceber ao longo das duas temporadas o quanto a maturidade chegou para o personagem no que remete ao entendimento de si mesmo. A iniciativa de dar voz não só a ele, mas a homossexuais assumidos e não assumidos dentro de ambientes que condenam a união homoafetiva é algo que Greenleaf não tinha “obrigação” de fazer, pois não se vende como tal, mas o faz com maestria.

O impacto de séries “comuns” na discussão vai além da sexualidade, se estendendo também à representação da quebra de padrões de gêneros. Gypsy, série estrelada por Naomi Watts cancelada pela Netflix ainda em sua primeira temporada, trouxe Dolly, uma criança que não se encaixava nos estereótipos relacionados com o feminino. A luta de Jean (personagem de Watts) pela inclusão da filha nos ambientes que frequentam para que a menina tivesse o mínimo de respeito ao escolher não se comportar da forma convencional está longe de ser o foco da série, mas é um dos mais fortes pontos da narrativa.

Não se pode descartar, no entanto, que algumas séries LGBT’s conseguem se sobressair e contar histórias que fujam do padrão EUA. Transparent da Amazon Prime, deu ao mundo das séries Maura Pfefferman, a mulher trans que saiu do armário para a família no auge de seus 68 anos de idade. A quebra do padrão, a não inclusão da vida sexual da personagem num primeiro momento e o foco na retratação de como o mundo lida com a transição e a afeta dá o diferencial que rendeu tantos prêmios ao show.

Não existe uma barreira quando se propõe a discutir o tema de forma consistente. Vítima do "preconceito" de muitos por ser um canal teen, a Freeform também consegue fazer de The Fosters um dos programas mais inclusivos quando o assunto é retratação de uma família LGBT. Chefiada por duas mulheres lésbicas, o companheirismo do casal não se limita à sexualidade, com o seriado abordando assuntos referentes à autoaceitação, inseminação artificial e criação de filhos.

No mais, é importante pular fora do cerco de vez em quando. Retratações muito estereotipadas tem a tendência de rotular e consolidar uma imagem de uma minoria que não existe no mundo real. É pertinente que a vida sexual seja retratada, mas nem só de close um lgbt é feito e é para isso que esse artigo chama a atenção, ao modo com que séries que se rotulam libertadoras, cumprem uma agenda que deixam a desejar comparadas às que não se propõe a fazer isso.


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