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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: AFINAL, O QUE É A REALIDADE?
Author: Jéssica Ohara
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Toru Okada é um jovem casado e sem filhos, que leva uma vida banal em Tóquio. Quando seu gato desaparece, ele vê seu cotidiano se tr...




Toru Okada é um jovem casado e sem filhos, que leva uma vida banal em Tóquio. Quando seu gato desaparece, ele vê seu cotidiano se transformar. A partir disso, personagens cada vez mais estranhos começam a aparecer, transformando a realidade em algo digno de sonho. Com seus fantasmas invadindo o mundo real, Toru Okada é obrigado a enfrentar os problemas que carregou consigo por toda a vida.
Conjugando os elementos mais marcantes da obra de Haruki Murakami, "Crônica do Pássaro de Corda" fala sobre a efemeridade do amor, a maldade que permeia a sociedade moderna e o legado violento que o Japão trouxe de suas guerras. Cativante, profético, cômico e impressionante, é um tour de force sem paralelos na literatura atual.



Mais um Murakami porque todo dia é dia de exaltar esse homem. Para mim, esse livro uniu dois tipos de tramas que ele é especialista: o sobrenatural e as relações humanas, especialmente traumas. A história parte do desaparecimento do animal de estimação da casa de Toru Okada, um homem casado e sem filhos que acaba de sair do emprego. O gato sempre foi de dar passeios pela vizinhaça, mas dessa vez ele não volta, como Toru está com tempo ele vai procurá-lo.

O mais banal dos acontecimentos gera reviravoltas tanto na vida pessoal de Toru como na de todos que estão a sua volta, atraindo questões muito mais graves do que o primeiro problema. Cheguei a pensar no livro como um grande exemplo de efeito-borboleta, mas ao final percebi que é mais como a gota d'água. Como se todo esse tempo os personagens estivessem num jogo de torremoto e alguém finalmente puxou a peça que sustentava tudo.


A forma que o relacionamento de Toru com a esposa Kumiko foi mostrado trabalhou uma questão interessante: e se o amor não for o suficiente? Nós fomos induzidos dentro de uma visão romântica que tudo pode ser curado e esquecido através do amor, que podemos ser pessoas melhores (Heathcliff rindo no túmulo nesse momento), mas às vezes as feridas são mais profundas do que pensávamos. Nós podemos achar que estamos bem, mas no fundo só estamos mentindo para nós mesmos e não podemos depositar nossas esperanças em outra pessoa dessa forma porque isso não é compartilhar, mas sim deixar um peso com outro.

E isso também vale para quem aceita receber o nosso peso, as pessoas não são cegas, elas veem que tem algo errado, mas por medo, mais do que por respeito, não conseguem chegar ao âmago dessa sensação. Toru aprende do jeito mais difícil a mergulhar na escuridão de outra pessoa e tentar salvá-la, mas talvez seja tarde demais.

Murakami também toca muito no assunto da violência, tanto a física como a emocional. Eu gosto como ele deixa claro que não se machuca alguém de forma irreversível só batendo, há outras maneiras de enlouquecer alguém. Além do próprio mal que está presente numa sociedade que ainda não se recuperou dos horrores que ela mesma provocou, eu fiquei surpresa de como ele foi minucioso falando sobre a guerra da Manchúria, sobre os ideais imperialistas do Japão e os crimes terríveis que ocorreram na União Soviética. Histórias que por diversos motivos fingimos que estão ultrapassadas e superadas, mas que só continuam a germinar suas sementes do mal e dor dentro da sociedade (um beijo escravidão no Brasil).

É um livro imenso, tanto fisicamente como em outros planos. Na leitura ficou claro pra mim que há diversos jeitos de se estar morto, ou até meio-vivo, você pode até tentar disfarçar, mas o cheiro da morte ainda é perceptível apesar das flores.

Esse livro foi gentilmente cedido pela editora para resenha ❤

AUTOR(A): Haruki Murakami
PÁGINAS: 767
EDITORA: Alfaguara
LANÇAMENTO: 2017
ONDE COMPRAR: Aqui
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