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Michelle Louise Michelle Louise Author
Title: OITO MULHERES, UM SEGREDO E A REPRESENTATIVIDADE FEMININA NO CINEMA
Author: Michelle Louise
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Sou fã da Sandra Bullock de longa data e estou mais do que acostumada a assistir tudo que leve o nome da atriz e com este filme não seri...

Sou fã da Sandra Bullock de longa data e estou mais do que acostumada a assistir tudo que leve o nome da atriz e com este filme não seria diferente. "Oito Mulheres e um segredo" era esperado por mim há muito tempo, por muitos motivos e, gostaria de adiantar, me agradou mas do que seria saudável para alguém. Este filme, que pertence a franquia da trilogia protagonizada por George Clooney e Brad Pitt, remete aos filmes antigos em vários momentos mas está aqui para dizer: Dentro desta franquia, as mulheres tem sua própria história.

Debbie Ocean (Sandra Bullock) é irmã de Danny Ocean (George Clooney) da primeira trilogia, e acaba de sair da prisão onde esteve pelos últimos 5 anos, oito meses e 12 dias. Essa quantidade considerável de tempo foi a oportunidade para ela pensar no crime perfeito, em quantas pessoas seriam necessárias para realiza-lo e quanto dinheiro precisariam.

Para isso, ela conta com a ajuda de sua amiga e parceira de longa data , Lou (Cate Blanchett) que tem todos os contatos que sua amiga precisa. Se juntam ao time a estilista Rose Weil (Helena Bonham Carter), a hacker Nine Ball (Rihanna), a joalheira Amita (Mindy Kaling), a antiga amiga/parceria de roubos de Debbie, Tammy (Sarah Paulson), e a ladra Constance (Awkwarfina). O filme ainda conta com Anne Hathaway no papel da famosa Daphne Kluger que estará usando o objeto de desejo dessas mulheres: um colar de $150 milhões de dólares que será usado por ela no grande e luxuoso Met Gala, em Nova York. Um colar tão caro e tão protegido que não deixa o cofre a mais de 50 anos.


Debbie e Lou acabam tendo mais atenção e screentime, por serem as mentes por trás do crime. Sandra e Cate mostram que possuem uma química inacreditável não somente fora de tela (como é possível perceber nas entrevistas e eventos de divulgação do filme), mas elas funcionam muito bem como parceiras de crime (fica o questionamento se elas são apenas isso mesmo, viu?!). Sandra Bullock, como de costume, não deixa nada a desejar e você se pega admirando cada pequeno golpe que Debbie aplica desde o inicio do filme, como se roubar fosse algo tão inerente a personagem que ela não consegue evitar por menor que seja o item em questão. A sempre impecável Cate Blanchett nos entrega sua personagem com uma postura que se impõe e é impossível não ser notada, até porque com um guarda roupa daqueles é impossível não captar a atenção do público. Ela caminha como se fosse dona do lugar...o que, de fato, ela é.

Sarah, Helena e Mindy estão absolutamente fantásticas (Oui!) mostram que possuem um timing perfeito para a comédia e encantam com seus personagens, mesmo que elas não tenham um aprofundamento grande de suas histórias dentro do filme. Awkwarfina é um grande talento aqui revelado e Rihanna mostra que pode convencer como uma hacker, mesmo que na vida real ela mal seja capaz de ligar o próprio IPhone. Anne Hathaway dá um show a parte e acaba roubando a cena, se tornando um dos grandes atrativos e surpresas do filme, trazendo uma personagem egocêntrica e insegura, tudo na medida perfeita. Cada uma com sua personalidade, essas mulheres compõe o time dos sonhos para o maior roubo de jóias da história.


O “recrutamento” de cada uma das integrantes do crime acaba sendo rápido (até demais). O telespectador sabe sobre essas mulheres informações básicas, como o porquê elas estão aceitando participar disso e o papel a ser desempenhado por cada uma. A forma como os planos e sequencias foram intercalados na edição do filme também me deixaram um pouco incomodada, mas nada que pudesse atrapalhar meu envolvimento com o longa ou com a história.

Com um plano perfeito e bem articulado, é fácil se deixar levar pela história e ver a mágica acontecendo dentro do cinema durante quase 2 horas. Porém, talvez ele tenha sido bem articulado demais e não existe aquele medo das coisas darem errado. E eu senti falta dessa tensão no filme, e achei que ela poderia ter sido melhor explorada.

Sarah Edwards deu um verdadeiro show no visual de cada personagem e, com o passar do filme, você percebe que o guarda roupa de cada remete exatamente sua personalidade e este é um toque de gênio. É impossível não ficar encantada e querer cada peça que passa na sua tela. Ah, se eu pudesse vestir o guarda roupa de Lou tão bem quanto Cate Blanchett eu ia querer ele inteiro, sim!

O dinheiro, na grande realidade, não é tão importante para Debbie. A grande questão aqui é sobre ser capaz de realizar esse feito. É sobre ser capaz de roubar algo no evento mais exclusivo e seguro de todos os possíveis. É roubar algo com várias pessoas no local. É roubar algo impossível de ser roubado. Está no sangue dos Ocean, não é mesmo?

Eu sai do cinema depois de ver este filme com uma sensação maravilhosa. Uma sensação de ter esperado muito por alguma coisa e ser absurdamente recompensada, porque eu amei cada segundo que este filme me apresentou. Na grande realidade, é inevitável não querer entrar para esse time de mulherões que o filme te entrega. O tempo de comédia é perfeito, as atrizes mostram que tem carisma e cumplicidade entre si e, particularmente, para mim o filme funcionou muito bem. Ele cumpre seu papel de entreter, divertir e aguçar sua curiosidade como telespectador. Eu queria fazer parte deste time e sei que muitas mulheres que assistiram esse filme também.


Mas nós precisamos falar sobre o que esse filme significa, além das telas do cinema. A gente precisa falar de representatividade. Oito mulheres e um segredo estreou em um momento feliz e importante para a história feminina dentro de Hollywood e, acreditem, isso não significa que esses fatores tornaram o filme fácil de ser aceito ou produzido. E, justamente por isso, precisamos conversar sobre ele.

Esse é um momento na indústria do entretenimento onde as mulheres deixaram claro que não serão mais caladas diante da sociedade, como acontece historicamente. O movimento #MeToo denunciando abusos sexuais que finalmente estão vendo a luz do dia, a discussão sobre igualdade salarial entre homens e mulheres...existem diversos fatores que estão ai para provar que as mulheres tem voz e querem que suas histórias sejam contadas, querem ser protagonistas das próprias histórias. Isso não deveria ser novidade alguma. Mas, então, porque Ocean's 8 continua recebendo destaque por ter protagonismo feminino em pleno 2018?


O fato disso ainda precisar ser ovacionado e aplaudido é apenas a aponta do iceberg de um problema que está enraizado no cinema e no mundo real a muito tempo: O protagonismo masculino que apresenta a mulher apenas como, a esposa, namorada, filha, a amante. Sempre a sombra da figura masculina, que está no centro da história ditando como as coisas devem ser.

Quando o remake  de "Caça - Fantasmas" foi anunciado ouve uma comoção generalizada sobre o assunto. Quase ninguém queria um remake desse clássico dos anos 80. Quase ninguém queria um remake desse clássico dos anos 80 com protagonismo feminino. As Caça - Fastamas? Quem precisa disso? Houve boicote ao filme e, para fechar, ele sofreu duras e pesadas críticas. Esse medo acompanhou Oito Mulheres e um Segredo também. Um filme que faria parte de uma franquia originalmente masculina sendo lançado agora? E com mulheres? Tinha tudo para ser um as Caça - Fantasmas: parte 2. Até seu lançamento que quebrou os records da franquia de Ocean's no Box Office. 

E o box office é importante demais. A indústria trabalha com números, trabalha com bilheterias, trabalha com valores. Por isso é tão importante ver filmes como esse no cinema, mesmo que seja caro o ingresso em terras brazucas. É preciso que o público mostre que isso é rentável, que é importante e que precisa acontecer. As atrizes lutam para o filme ser feito, mas é previso que o público faça sua parte mostrando que existe telespectadores que anseiam por isso. Cada ingresso é válido e cada apoio se faz necessário.


Não foi fácil para Oito Mulheres e um segredo ser lançado. Mesmo contando com nomes como Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Rihanna, e Helena Bonham Carter a ideia custou a ser aceita. As próprias atrizes contam o quando Sandra lutou para fazer esse filme acontecer. A mentalidade que filmes protagonizados por mulheres não podem trazer dinheiro para a indústria ou que as histórias protagonizadas por mulheres só podem ser fúteis e não tão fascinantes como as histórias protagonizadas por homens ainda é comum, embora o ano seja 2018.

A mídia tentou de todas as formas possíveis mostrar que haviam brigas no set, nas entrevistas as perguntas sobre “Como vocês fizeram a convivência entre tantas mulheres funcionar” ou perguntas para o Gary (diretor do filme) sobre “Como ele conseguiu controlar todas essas mulheres” eram comuns. Brigas entre as atrizes foram inventadas mais de uma vez. Mas, basta ver uma entrevista com o elenco para você perceber o quão amigável, afetuoso e divertido era o set de gravações. Cate Blanchett deixou o recado :

Sim, mulheres podem se dar bem. (Desculpem, eu não deveria dizer uma verdade tão chocante sem um aviso prévio. Peço desculpas pela indelicadeza e possíveis transtornos causados).


Esteriótipos femininos rondam o mundo e todos os tomam como verdades absolutas. Por isso é tão importante existir um filme que traz tudo isso à tona e quebra todos os paradigmas que precisam ser quebrados. As mulheres deste filme pertencem a mundos distintos, são diferentes de personalidade, cada uma é única, cada uma tem seu toque especial.

Mulheres podem e devem ser protagonistas das suas histórias e essa, talvez, seja a mágica de Ocean’s 8. Aqui temos a história de 8 mulheres que são exatamente quem elas querem ser, é a história de 8 mulheres sem a sombra masculina. As mulheres estão no comando e isso é natural, como não deveria deixar se ser.

O filme é leve, é divertido, tem piadas nas horas certas e sem pesar na mão. As atuações estão sensacionais e até mesmo os nomes menos conhecidos do elenco tem seu momento de brilhar. A maior reflexão do filme, que deixa a frase no ar sem maiores alardes, é dita por Debbie Ocean em uma conversa com Lou

“Se for Ele é notado, se for Ela é ignorada. E, pela primeira vez, queremos ser ignoradas”.  

A gente não vai parar de discutir protagonismo feminino no cinema enquanto as coisas não mudarem. Enquanto a gente ainda sentir a necessidade de ovacionar um filme porque o elenco é composto por mulheres, ainda estaremos longe do ideal. As piores criticas do filme são majoritariamente  masculinas, o que infelizmente não surpreende nem um pouco, embora mostre a realidade em que vivemos. As Caça Fantasmas abriram caminho. Oito Mulheres e um segredo chegaram com tudo para mostrar que a história não iria acabar ali e eu mal posso esperar pelo que mais virá no futuro.

Nós estamos no caminho certo, um passo de cada vez até que a gente não precise mais debater representatividade porque todos estarão sendo representados.



PS1: Entrei no cinema apaixonada por Sandra Bullock. Sai do cinema apaixonada por 8 mulheres.
PS2: Sai do cinema obcecada por Cate Blanchett e não há nada que possa ser feito a respeito.
PS3: A amizade desse cast, mas principalmente, entre Sandra, Cate e Sarah é algo que eu vou ser sempre grata que esse filme trouxe. Eu quero entrar para o Squad.
PS4: Se Sandra e Cate estão falando sobre romance em Ocean's 9, quem sou eu para dizer não?
PS5: Quantas vezes é aceitável assistir as entrevistas desse elenco maravilhoso?
PS6: Obrigada, Ocean's 8. Obrigada.


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