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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: DA POESIA: O ATO IRREPARÁVEL DE ME AMAR
Author: Jéssica Ohara
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A intensa e prolífica atividade literária de Hilda Hilst se desdobrou em livros de ficção e em peças de teatro, mas foi na poesia ...





A intensa e prolífica atividade literária de Hilda Hilst se desdobrou em livros de ficção e em peças de teatro, mas foi na poesia que ela deu início e fim à sua carreira. Ao longo de 45 anos, entre 1950 e 1995, a poeta publicou em pequenas tiragens graças ao entusiasmo de editoras independentes com destaque para Massao Ohno, seu amigo e principal divulgador. No início dos anos 2000, os títulos de Hilda passaram a ser publicados pela Globo, editora com ampla distribuição. Nessa época, a sua escrita, até então considerada marginal e hermética, começou a receber o interesse de uma legião de leitores e estudiosos. Agora, a Companhia das Letras reúne, pela primeira vez, toda a lavra poética da autora de Bufólicas em um só livro, que inclui, além de mais de 20 títulos, uma seção de inéditos e fortuna crítica. O material contém posfácio de Victor Heringer, carta de Caio Fernando Abreu para Hilda, dois trechos de Lygia Fagundes Telles sobre a amiga e uma entrevista cedida a Vilma Arêas, publicada no Jornal do Brasil em 1989. A poesia de Hilda que ganha forma em cantigas, baladas, sonetos e poemas de verso livre explora a morte, a solidão, o amor erótico, a loucura e o misticismo. Ao fundir o sagrado e o profano, a poeta se firmou como uma das vozes mais transgressoras da literatura brasileira do século XX.


Em maio, eu fui à exposição Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial. Além das obras fantásticas, também me tocaram algumas poesias colocadas nas paredes, acompanhando as peças. Foi nesse dia que eu conheci Hilda Hilst. Parece estranho ter o primeiro contato com uma autora tão famosa nessa altura do campeonato. Mas não é incomum. Como alguns de seus biógrafos salientam, Hilda é muito conhecida, mas pouco difundida. As pessoas não leem sua obra, mas com certeza sabem (ou pensam saber) algo de sua excêntrica vida. 

 Farnese de  Andrade. s.t., s.d. 
Fotografia: Iara Venanzi/Itaú Cultural


III
Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.

“Da poesia” reúne toda a produção poética de Hilst em ordem cronológica. É possível ver o desenvolvimento da artista e o aprofundamento de seus temas. As poesias dela não são fáceis, não por serem pouco acessíveis, mas porque falam à alma. Muitas vezes dizem verdades que você não quer ouvir. Suas palavras parecem com fogo que deixa a pele em carne viva.

III
Pertencente te carrego:
Dorso mutante, morte.
Há milênios te sei
E nunca te conheço.
Nós, consortes do tempo
Amada morte
Beijo-te o flanco
Os dentes
Caminho candente a tua sorte
A minha. Te cavalgo. Tento.

Eu demorei a terminar o livro, porque queria senti-lo na sua totalidade. Refletir a cada poema. É aquele volume que sempre estará à mão quando precisamos de consolo ou de ver a dura realidade. Principalmente, quando se trata de relações. O amor é um de seus temas favoritos e, o qual, na minha opinião, ela desenvolve com de forma mais perfeita. 

X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus

Não é apenas vaidade de querer
Que aos quarenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais
E porisso perdoa todo esse amor de mim

E me perdoa de ti a indiferença

Hilda não tinha medo de amar ou que muitas vezes quer dizer que ela não tinha medo de sofrer. Ela não aceitava o sofrimento passivamente, mas o transformava em combustível para vida. Nos seus poemas, vi todo a fúria de uma paixão, as discussões interiores e aquelas que são gritadas aos quatro ventos. Chorei em algumas partes, sorri com saudades em outras. Ela é força na sua forma mais refinada e pungente.

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Tachada de louca, teimosa, difícil entre outros. Hilda foi contra os parâmetros de bela, recatada e do lar da sua época. Amou como quis e escreveu como queria, não traindo a sua essência. É difícil escrever uma resenha sobre ela, descrever as diversas sensações que a sua escrita faz com que tenhamos. O máximo que posso fazer é dizer que é como se apaixonar: maravilhoso e aterrador.

XX
Guardai com humildade
Estas trovas de amor.
E se um dia eu morrer
Antes de vós
como sói muita
Acontecer
Lembrai-vos:
o que dei
Foi um amor tão puro
Atormentado mas
Tão claro e limpo
E sentireis, senhor,

Tudo o que sinto.


Esse livro foi cedido para resenha pela editora ❤❤❤

AUTOR(A): Hilda Hilst
PÁGINAS: 616
EDITORA: Companhia das Letras
LANÇAMENTO: 2017
ONDE COMPRAR: Aqui
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