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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: BRASIL EM 26 (+1) LIVROS: O CRIME DA GALERIA DE CRISTAL
Author: Jéssica Ohara
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"Barthes toma como exemplo um assassinato. Se o crime é político, estamos diante de uma informação parcial - a morte - cuja intelig...

"Barthes toma como exemplo um assassinato. Se o crime é político, estamos diante de uma informação parcial - a morte - cuja inteligibilidade remete necessariamente a um conhecimento exterior, que existe fora dela, antes dela e em torno dela, qual seja, o conhecimento político, por mais confuso que possa ser."

Alô, galera! A nossa viagem literária continua e cá estamos em São Paulo, mas não na megalópoles que conhecemos(e tememos), mas na cidade que estava crescendo e se transformando no século XX.  Eu penso que O Crime na Galeria de Cristal apresenta um movimento da sociedade que pode ser entendido no seu primórdio em 1908 e ainda continua atualmente, uma busca incessante pela espetaculização da vida de pessoas comuns. Boris Fausto conta de forma jornalística três crimes que chocaram a sociedade paulistana do início do século XX: o primeiro foi executado por uma mulher, algo raro na época e os outros dois foram crimes nos quais os corpos foram colocados em malas.  Em todas as história, nós nos confrontamos com elementos como machismo, sensacionalismo, a parcialidade da justiça entre outros.

"ai daquela que tenta vingar a sua honra, pois eles se levantam e se encolerizam e são até capazes de a condenar a trinta anos de prisão para que ninguém mais defenda a honra, para que a honra não exista"(Fala da Albertina"

Eu não esperava ter ficado tão envolvida com essas histórias, tinha escolhido o livro por se passar em São Paulo, ter um autor paulista e por isso se encaixar bem no projeto. Mas nunca fui muito de ler esse gênero, nem mesmo me interessar. Foi uma grata surpresa a fluidez da escrita e as questões éticas que iam se apresentando durante o livro.

"Mas, para a maioria dos jurados, importava acima de tudo o que consideravam fazer justiça, obedecendo pois aos princípios, ao sentimento dominante na sociedade, acima da interpretação literal da lei: ficava provado que a ré era uma jovem honesta, com uma atividade profissional respeitável, que se encontrava grávida no início do processo, e depois trazia no colo, com desvelo, seu filho legítimo."

Só o primeiro caso já me deixou completamente chocada por todas os tabus sociais que envolveu. Quando jovem, Albertina havia tido caso com um pensionista de sua mãe: Arthur Malheiros. Eles tiveram um breve caso e o homem a abandonou, logo depois ela descobriu que estava grávida. Expulsa pela mãe, ela teve o bebê longe, nascendo uma menina que é rejeitada por todos, por fim a mulher não tem outra escolha que não seja abandona-la. O  bebê acaba morrendo no orfanato. Uma história triste como tantas outras, mas ela não terminou aí. Albertina se reergue, se forma como professora e dá aula no interior, conhece o professor Bonilha com quem se casa. Mais uma vez, tudo poderia terminar, senão fosse o fato dos dois terem decidido vingar a honra quatro anos depois da tragédia. Juntos eles atraem Malheiros para um hotel, no qual Albertina atira e esfaqueia Malheiros, praticamente vestida de noiva e logo depois Bonilha chama a polícia, certo de que a justiça foi feita.

"Ou seja, a decretação de uma prisão preventiva, tendo como alvo um mulher inocente, se justificaria como punição por um comportamento moral censurável que precisava ser condenado pela parte são da sociedade".

Os outros dois crimes são os apelidados "crimes da mala". Fica até bem óbvio o que aconteceu. No primeiro, Michel Trad, libanês, matou seu chefe, o colocou na mala e tentou embarcá-la para a Europa em um navio. O mais extraordinário desse caso é a personalidade do assassino e as razões por trás do crime, muito se especulou da participação da esposa do morto, Carolina, mas até hoje não se sabe as verdadeiras causas. Apesar disso, Michel tomou o protagonismo do caso até mesmo pelo mistério de suas motivações causando um furor na opinião pública e na comunidade síria-libanesa. Ele cavou um lugar no imaginário popular da época.

"No contexto masculino, a literatura de ficção incentivava a agressividade, que muitas vezes acabava desembocando na perversidade social. Quanto às mulheres, a leitura de romances conduzia as jovens ao bovarismo, às fantasias perigosas, como acontecera com Madame Bovary, no romance de Flaubert."

O segundo crime da mala ocorre vinte anos depois, um feminicídio que mais uma vez envolveu imigrantes. Giuseppe Pistone matou sua esposa Maria Féa, grávida, e tentou mandar seu corpo em uma mala. O que mais me impressionou nesse caso foi a diferença na reação pública que ele causou em comparação com o primeiro. Mostrava uma grande mudança de prioridades na cidade, se antes era uma cidade "que não acontecia nada", agora havia se tornado um lugar que aconteciam crimes o suficiente para que a sociedade não parasse em torno desse acontecimento. 

A partir desse crime chocante, a sociedade paulista se vê colocada diante de vários tabus: Seria possível uma mulher cometer tamanho crime? É justo vingar a honra? Ainda mais depois de tanto tempo? Albertina é um monstro ou uma heroína exemplar? Confesso que a minha primeira impressão foi completamente anacrônica, a considerei culpada de um crime frio e não entendi como pode ter havido tanto polêmica entorno de um acontecimento tão claro. Mas ao longo da leitura comecei a me questionar e entender melhor aquela sociedade.

Eu queria falar de três pontos que chamam atenção não só no primeiro caso, mas como também nos outros dois. O primeiro deles é o machismo que está impregnado em cada ato da defesa e da acusação. Para desmoralizar Albertina, levantaram acusações de que ela era uma prostituta, dada a vícios e com uma péssima moral. Já a defesa levantou seu papel como mulher descente e mãe amorosa, que apenas queria defender a sua honra para limpar o seu passado e ter assim um casamento feliz. O que estava em evidência era o que era ser mulher, Albertina só poderia ter cometido crimes por ter sido influenciada por novelas libertárias e por já ter uma índole ruim herdada da mãe, porque uma mulher de verdade era o sinônimo da pureza e fragilidade. Ou ela só cometeu o crime porque ainda estava abalada psicologicamente e precisava limpar seu nome para o marido, não para si. Até chegaram a duvidar da sua real participação no assassinato, num ato cruel como esse. Essas questões não eram levantadas em julgamentos de homens, como é perceptível nos casos seguintes, nos quais os nomes das mulheres foram envolvidas como causas(Carolina) ou alvos(Maria Féa). Nessas defesas a voz da própria acusada é esquecida, mesmo ela se colocando claramente como uma protagonista e autora do crime, com convicções sérias sobre o seu papel na defesa da própria honra.

O segundo ponto é a espetaculização do judiciário através da imprensa. Jornais tomaram lado(não é que isso é antigo? hahaha) e narraram com vigor todos os acontecimentos. O próprio autor fala que não conseguiu acesso aos autos, mas através dos jornais da época conseguiu cópias de todos os acontecimentos colocados quase que na íntegra. Parecia ser como torcer para um time, com pessoas esperando os resultados, filas nas entradas dos tribunais, disputas de narrativas entre os jornais do Rio  e de São Paulo. E claramente uma influência da opinião pública nas decisões do júri. Houve até mesmo um embate entre duas escritoras uma contra e outra a favor de Albertina, é interessante que nesse conflito conseguimos ver os primórdios da disseminação do feminismo. Contribuiu muito para esse cenário a fotografia que colocou os leitores próximos de todos os pormenores dos crimes. O ápice desse sensacionalismo é a publicação do diário de Michel Trad, feito na cadeia.

Por último, ficou bem evidente os problemas da grande cidade que São Paulo estava se tornando, agora com crimes de cidade grande, essa é uma das coisas que é dita muitas vezes nos documentos apresentados por Fausto, por vezes com uma clara admiração da população por essa mudança. Nos julgamentos é possível distinguir os problemas que pulsavam e se delineavam no crescimento paulista, como os conflitos étnicos,a identificação nacional, o poder e prestigio cada vez maior dos advogados e a crescente atenção da burguesia para com a vida da cidade.

Enquanto eu escrevia essa resenha comecei a ter a verdadeira noção de quão denso era esse livro, tive que me conter para não fazer quase uma resenha acadêmica, explorando cada questão. Mas também alguns outros traços ficaram claros, como o fato de Fausto ter se alongado muito em um caso, o da Albertina, deixando os outros dois muito curtos(percebe-se até na minha resenha isso). Apesar disso, a escrita é envolvente e muito fácil de pegar. Dentro desse projeto eu quero conhecer o Brasil por diversos ângulos e nesse livro pude entender uma das fases de São Paulo através de um olhar atual. A próxima parada é no Ceará com um livro já escolhido, mas o destino em aberto ainda é o Espírito Santo, dêem suas sugestões de quem e do que ler. Até mais, galera!

Região: Sudeste – Estado: São Paulo – Cidade(s): São Paulo, Piracicaba
Livro: O Crime da Galeria de Cristal e os Dois Crimes da Mala
Bairros: Centro de São Paulo
Autor: Boris Fausto (São Paulo, 1930)

O Ilustríssima Conversa sobre o livro aqui

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha <3
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