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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: O ASSASSINATO DO COMENDADOR VOL 2: METÁFORAS QUE VAGAM
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Como um mágico no auge de seu poder, Murakami dá vida a um universo inteiro povoado por personagens, histórias e e...





















Como um mágico no auge de seu poder, Murakami dá vida a um universo inteiro povoado por personagens, histórias e enigmas que têm o poder inesquecível dos sonhos mais vívidos.
No primeiro volume desta história, deixamos o protagonista ansioso para saber o que está escondido atrás da pintura chamada de “O assassinato do comendador”. Ele também aprendeu a conviver com os estranhos personagens e objetos que o cercam desde que se estabeleceu em uma casa nas montanhas. E, a pedido de seu vizinho, ele começou a esboçar o retrato de uma adolescente peculiar, Mariê Akikawa.
Contudo, Marie desaparece misteriosamente no caminho de volta da escola, e nosso protagonista se lança em uma busca frenética. Neste segundo livro, de ritmo acelerado e cheio de suspense, os desfechos são revelados e se encaixam como num quebra-cabeça, para que toda a pintura faça sentido.


O Assassinato do Comendador é um livro em dois volumes. No primeiro, Murakami nos dá um contexto geral sobre os personagens  e as suas essências. Lembro de tê-lo entendido como uma pintura que não tinha um ponto central, de cada ângulo ele poderia ser lido de uma forma. Já o segundo volume é mais acelerado, mas de algum jeito torna tudo mais complexo. Os motivos e fraquezas dos personagens são expostos e começamos a entender quem devemos temer.

O livro começa no ponto que o outro acabou, com o protagonista pintando o retrato de Mariê para Menshiki. A relação entre o pintor e o ato de pintar continua de forma muita intensa, as descrições nos fazem quase sentir o lápis e o pincel na mão. O Guizo que foi usado para chamar o Comendador desaparece e a cada capítulo que a dose de estranheza só aumenta.

Diferente de algumas histórias de Murakami, na minha opinião, esse livro deixa o final bem fechado para o autor. Os pequenos conflitos são finalizados ou simplesmente aceitos como inevitáveis. Eu gosto da premissa na escrita dele que algumas coisas são como são, alguns errados não podem ser reparados, o máximo que podemos fazer, com sorte, é tentar compreender a causa.

O protagonista mergulha em um universo estranho e paralelo achando que está ajudando uma amiga em perigo e talvez descobrindo o mistério acerca da vida de Tomohiko Amada. Mas na verdade ele embarca em uma jornada para compreender seus próprios traumas e angústias. O protagonista era um homem que não encarava o passado da forma que devia e isso o deixou de alguma forma incompleto, um sentimento que se reverberava por todas as suas relações, inclusive na matrimonial. Ao superar a perda da irmã, ele pôde finalmente estar presente de verdade na vida das pessoas ao seu redor.

A dificuldade que os homens têm para falar dos seus traumas e medos é um tema muito bem explorado na Assassinato do Comendador. Quase todos os personagens masculinos, até os que quase não aparecem como o pai de Mariê, criaram um distanciamento das pessoas próximas a si porque não conseguem de alguma forma desabafar, de expressar a dor. Criando barreiras quase palpáveis, precisando extravasar de outras formas como no caso do Tomohiko que pintou o quadro do comendador. 

Ao falar de barreiras emocionais, Murakami toca em outro ponto muito sensível: a paternidade. O muro psicológico  criado reverbera nos filhos, segredos que não são compartilhados, tornando impossível até mesmo a ideia de amor filial. A jornada do pintor é uma espécie de força oposta que está ali para quebrar esse ciclo, para criar um outro tipo de relação para o futuro.

Por fim, O Assassinato do Comendador ao apontar o inevitável também salienta a escolha, nós, muitas vezes, não temos nenhum poder para mudar o que vai acontecer, seja bom ou ruim, a questão é como a gente escolhe lidar com isso, o quanto estamos dispostos  a não afundar na dor. Depressão é um tema recorrente nas histórias de Murakami e como uma pessoa que sofre esse mal, me identifico muito com as suas personagens. Essas jornadas mortais que temos que fazer dentro de nós mesmo são quase impossíveis, mas temos que ao menos tentar, mesmo que nos arrastando. A escolha também não é só uma questão de querer ficar bem, tem a ver com lutar para ficar bem.

Esse livro foi fruto da parceria com a Companhia das Letras!

AUTOR(A): Haruki Murakami
PÁGINAS: 376
EDITORA: Alfaguara
LANÇAMENTO: 2020
ONDE COMPRAR: Aqui



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