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Jéssica Ohara Jéssica Ohara Author
Title: I'M THINKING OF ENDING THINGS: PONTOS NO TEMPO
Author: Jéssica Ohara
Rating 5 of 5 Des:
Eu sou uma pessoa de gostos simples, eu vejo Toni Collete e simplesmente clico.                                       Desde o...


Eu sou uma pessoa de gostos simples, eu vejo Toni Collete e simplesmente clico.

                                     

Desde o lançamento do trailer de i'm thinking of ending things que eu estou obcecada em ver esse filme, o formato e o mistério me conquistaram nos primeiros segundos de propaganda, acho que há muito tempo não ficava tão ansiosa por uma estreia da Netflix. Ontem finalmente, pude parar e me dedicar a apreciar essa obra.

A história parece ter uma premissa bem simples, uma jovem chamada Lucy vai com o namorado Jake em uma viagem curta para conhecer os pais dele. Começa a nevar e uma paisagem melancólica se forma na estrada e surge um pensamento na cabeça de Lucy: eu estou pensando em acabar com tudo. O que parece uma crise normal de um relacionamento intenso com o desenrolar do filme vai se tornando uma trama na qual a própria veracidade do tempo é questionada.

A partir do momento que Lucy entra no carro, nós somos levados para outra compreensão da realidade, como se estivéssemos vendo várias possibilidades de ciclos. O filme é carregado nos diálogos e atuações que, ao meu ver, estão de parabéns, os atores se encaixam bem nas personagens, desenvolvendo vozes que mesmo quando tudo que era seguro e conhecido muda, eles continuam reconhecíveis.

Há quatro temas importantes que eu identifiquei no filme: a passagem do tempo, o não-dito nos relacionamentos, a idealização e a conformidade. Em um momento da história, Lucy diz: "As pessoas pensam em si mesmas como pontos se movendo no tempo. Mas acho que deve ser o contrário. Estamos parados, e o tempo passa por nós, soprando como o vento frio, roubando nosso calor, nos ressecando e congelando." e é dessa forma que podemos encarar as personagens e a nós mesmos como expectadores. Parece que estamos parados observando as diversas possibilidades temporais, não são somente  previsões de futuros,o passado muda,as histórias são sobrepostas, mas nós continuamos naquele ponto a observar.

O nome do filme fala muito sobre um desses temas, o pensar em acabar com tudo ainda não se transformou, apesar de já estar concretizado na mente. Mesmo assim com as pressões sociais, aquela verdade que se formou é esmagada e você se vê obrigado a continuar naquele casamento ruim, naquela relação tóxica com os pais, naquele emprego etc. O não dito grita no silêncio, mas quem está ao redor escolhe não ouvir.

O nome de Lucy, o seu passado, suas profissões, a história de como eles se conheceram, sua personalidade até mesmo seu rosto muda algumas vezes no filme, tudo dela se adequa a imagem que Jake gostaria de ter dela, em um dos diálogos ela chega a dizer " Ele precisa ser visto, e precisa ser visto com aprovação. Como se esse fosse meu propósito nisto, na vida. Aprovar o Jake. Mantê-lo seguindo em frente. E ele precisa me ver como alguém cuja aprovação dele é validada porque sou aprovada por outros.". E é pra isso que ela parece existir como uma criação da mente solitária daquele homem e também como um forma de controle de alguém terrivelmente manipulador. Ao meu ver, mais uma metáfora de como mulheres são obrigadas a se adequar a aquilo que esperam delas.

Por fim, esses temas convergem para falar de conformidade. Os ciclos representados no filme mostram as personagens se moldando aos papeis sociais que lhe foram impostos, tudo é coordenado para parecer perfeito, com as marcas emocionais, os hematomas sendo escondidos embaixo de sorrisos e votos de felicidade. Ganha-se o que se espera ganhar da pessoa.

O final do filme é a parte mais emblemática, nesse ponto nós chegamos a algumas possibilidades de desfecho sem que haja uma resposta definitiva de qual é a mais provável. Na minha mente, formaram-se duas possibilidade: de pessoas presas em um momento que destruiu suas vidas e até por isso que o passado é lembrado com tanta dificuldade ou de alguém arrependido pelo o que fez e para isso criou uma história que de alguma forma pudesse explicar as coisas. Ainda outra que eu senti menos probabilidade, a de um homem solitário que continua a imaginar quais seriam as possibilidades de futuro se tivesse saído da casa dos pais.

O filme desperta muitas interpretações que são boas de discutir. Gostei dos assuntos abordados como cultura de estupro, influência da mídia, o preconceito, o valores familiares etc. Sem contar que Toni Collete está de parabéns (nada de novo sob o sol). Gostei muito da paleta de cores e da iluminação. I'm thinking of ending things é uma história na qual se saboreia os detalhes.


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