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Ruan Wendell Ruan Wendell Author
Title: Budapeste - Chico Buarque
Author: Ruan Wendell
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Ao concluir a autobiografia romanceada O ginógrafo, a pedido de um bizarro executivo alemão que fez carreira no Rio de Janeiro, José Costa, ...








Ao concluir a autobiografia romanceada O ginógrafo, a pedido de um bizarro executivo alemão que fez carreira no Rio de Janeiro, José Costa, um ghost-writer de talento fora do comum, se vê diante de um impasse criativo e existencial. Escriba exímio, "gênio", nas palavras do sócio, que o explora na "agência cultural" que dividem em Copacabana, Costa, meio sem querer, de mera escrita sob encomenda passa a praticar "alta literatura". Também meio sem querer, vai parar em Budapeste, onde buscará a redenção no idioma húngaro, "segundo as más línguas, a única língua que o diabo respeita". Narrado em primeira pessoa, combinando alta densidade narrativa com um senso de humor muito particular, Budapeste é a história de um homem exaurido por seu próprio talento, que se vê emparedado entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas e uma série de outros pares simétricos que conferem ao texto o caráter de espelhamento que permeia todo o romance. O romance ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de 2003 e o IV Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, em 2005.




Budapeste é um romance diferente, excêntrico, mas no bom sentido. Pensando em como descrever essa história percebo que aparentemente o enredo aqui é importante apenas no sentindo em que é o pano de fundo que mostra a força transcendental do que realmente importa nesse livro, a linguagem. 

Somos apresentados a José Costa, um escritor, doutor em línguas que trabalha e é sócio de um escritório ou "agência cultural", onde se pode encomendar escritos como trabalhos acadêmicos, textos e até romances autobiográficos, feitos pelo próprio José Costa, nada mais que um ghost-writer. 

Das idas e vindas, da apatia de Costa pela mulher e filho e sua vida, ele vai parar em Budapeste, que acaba se tornando sua segunda casa. Entre o Rio de Janeiro e Budapeste, ainda que apenas no pensamento, Chico Buarque constrói um personagem ambíguo, que vive sempre em um duplo, entre cá e lá, entre duas línguas, dois amores, duas casas, entre a fama e o anonimato. 

A linguagem com o que o próprio José Costa, ou Zsozé Kósta, como fica conhecido em Budapeste, descreve seu cotidiano, é o que dá vida a narrativa, é o que permeia toda obra e o que mais se sobressai ao fim da leitura. Um personagem que faz da linguagem sua vida, sua escrita, seu mundo a parte, o abandono que ele relega a sua língua nativa a fim de aprender outra, que é extremamente difícil, o húngaro, que como dizem as más línguas, até o diabo respeita. A volta a sua pátria amada, a constatação de que é a língua materna aquela que jamais se perde. 

Esse é um livro belo, belo em descrições, em estilo, um estilo diferente e que por vezes zomba do leitor, nos fazendo voltar aquele parágrafo para ver se entendemos mesmo seu conteúdo. Estilo que vai e vem, destilando os acontecimentos a cada frase, mas vez ou outra trazendo uma repentina mudança, um baque surdo para o leitor. 

Enredo simples, linguagem poderosa, é isso que torna esse romance tão bom e não nos faz querer largá-lo.



TÍTULO:
Budapeste

AUTOR: Chico Buarque 

EDITORA: Companhia das Letras

PÁGINAS: 176

ANO: 2003

ONDE COMPRAR: Amazon

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